sobre a morte em vida

“se não fossem os fios de seda que costuram a outra vida de viver em linhas de escrever, morreria mais um pouco  do que já se morre todos os dias” Celane Tomaz é preciso falar da morte. e do tanto que se morre junto quando algo morre ou alguém. e o tanto de morte queContinuar lendo “sobre a morte em vida”

Devaneio da chuva de hoje de manhã

por Celane Tomaz há fluxo em mim e lá fora.há tempos não acordo com a torrente de tanta chuva. e aquele barulho ininterrupto, que de prontidão e escuta atenta, vivo e reparo dentro do oscilante movimento entre a maior e a menor intensidade, advinda da mesma força uníssona, mesmo quando não há raio ou qualquerContinuar lendo “Devaneio da chuva de hoje de manhã”

Queria um dia de sol

por Celane Tomaz queria um dia de soldaqueles que me faz esquecera nebulosidade de serque faz sentir na pelea vivacidade de existire arder o lugarque ocupo. queria um dia de solmodificando a cor da epiderme,sentindo lentamente meu corpofiltrando o calor de estar no mundo. queria um dia de sola vida acesa nas vozes,no concreto queContinuar lendo “Queria um dia de sol”

Continho depressivo

… não quero mais sentir. Sentir é pesado. De hoje em diante só quero a palavra. Que é leve. Que flutua. Que repousa nos ouvidos. Que passa pelos olhos. Que leva o sentir. Carolina Tomoi- Levantava cheia de planos. Espreguiçava-se. Punha-se em pé. Abria a janela. Inspirava e expirava admirando aquele recomeço. Mas nem bemContinuar lendo “Continho depressivo”

Poeticamente selvagem

“apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:come às vezes na minha mão.” Clarice Lispector, em Perto do coração selvagem por Celane Tomaz tantas tardes deformadas em ventaniae há um cheiro de chuva que se insinua. nesta terra,sinto-me muda de planta carnívoraa morrer-nascer entre espinhos.sinto-me raiz expostadispostaContinuar lendo “Poeticamente selvagem”

Garoa

“Aos olhos nus, não passava de uma chuva repentina, mas aqui dentro…”  Clarice Lispector por Celane Tomaz olhe pela tua janela.chove sobre a madrugada calada. a chuva molha o início da manhã.repare nas gotas que se mantêm e as que escorrem pela vidraça, resistindo à vida breve, mantendo-se firmes em água frágil. goteja como seContinuar lendo “Garoa”

diabo-deus, o pensamento

“Não há devassidão maior que o pensamento.Essa diabrura prolifera como erva daninhanum canteiro demarcado para margaridas.” Wislawa Szymborska por Celane Tomaz pensar para existir. dispenso. por vezes queria a vida-possível que habita o não pensar-me. existir sem a força e a dor de atribuir sentido ou razão de ser. apenas existir. mas no profundo mistérioContinuar lendo “diabo-deus, o pensamento”

de Ser

das tentativas de decifrar-se,da lucidezde compreender-se nas mutações.do querer caber no verbo(s).e sóexistir nos vãos das palavras.sentir é imenso. por Celane Tomaz é um doer de ossosexpandir-se um respirar ofegantedilatar-se é um perder sentidoscompreender -se entregar-se às dúvidasdespertar-se tatear a ousadiadesprender-se sentir o corpo rígidodesmanchar -se deixar a voz ecoarexercer-se um calar insanopensar-se (re)moldar (d)oContinuar lendo “de Ser”

Desfigurado

“Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz Eu não queria ver no espelho o teu rosto desfigurado. A tuaContinuar lendo “Desfigurado”

Gestar

Depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco. Alice Ruiz por Celane Tomaz Gerar é entrar em contato com a vida da forma mais crua e humana. O corpo dá forma a outro corpo – tão potente e presente, com a força e a ousadia de estar neste mundo. O corpoContinuar lendo “Gestar”

Face a faces

“fui mulher vulgar,meia-bruxa, meia-fera,[…]malandra, bicha,bem viada, vândala,talvez maquiavélica,e um dia emburrei-me mas tantas, tantas fiz” Ana Cristina César por Celane Tomaz tantos rostos mudoshabitam na confidênciade um corpo intocado.tantas faces cruas se entreolhamno espanto de um despertar em ruídos.como num relancecabem no ajuste do poemalimitados em linhas frágeis,irrevelados seres tênues. face ante as facestantos poetasContinuar lendo “Face a faces”

Corpórea

Colada à tua boca a minha desordem.O meu vasto querer. Hilda Hilst por Celane Tomaz Vestida de noiteEstrelas-ardênciasDeslizam entre minhas pernas. Despida em malíciaNua sobre o teu corpoO eclipse de almas é lunar. Gritas o diaSobre meus seios-montes de silêncio. Escorro de desejo-orvalhoNa aurora da manhã. Meu sol queima tua peleE o meu calor rompeContinuar lendo “Corpórea”

Esperas

a teia, nãomortamas sensitiva, vivente nocentroa aranha espera. Orides Fontela por Celane Tomaz Enquanto pacientemente cuidava da cicatrização da cirurgia do meu menor, pensava na escravidão da espera.Todos esperam. Não há escolha, desde aguardar água a ser fervida para o café, até a passagem do ano em que ilusoriamente tudo mudará. Não há para ondeContinuar lendo “Esperas”

Perdoai

Celane Tomaz – De tanto me pensar – quando há tempo – é que a culpa me acolhe nos braços e me aperta com suas potentes mãos. Encolho-me dentro dela como se compreendesse e aceitasse que ela nasceu comigo quando menina, mãe e mulher. Os fios desordenados do cabelo, a roupa velha e qualquer, asContinuar lendo “Perdoai”