Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro

Celina Simões – Veio estar comigo a Penha. Disse ela com lentidão, que a última pedra de sabão caseiro feito pela nossa mãe ia ser colocada para uso e mais disse ela: isso dá uma crônica. Penha é minha irmã mais velha. Nasceu em 1946 e ser irmã mais velha no seio de uma proleContinuar lendo “Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro”

FAROFEIROS

Texto publicado originalmente em 21 de outubro de 2020. Arlete Mendes- Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguidaContinuar lendo “FAROFEIROS”

DOLCE VITA

Texto publicado originalmente em 05 de julho de 2020 Arlete Mendes- Ouço tanto falar de empreendedorismo, palavra muitas vezes utilizada para escamotear relações trabalhistas precarizadas, tem gente que baba tanto nesse termo como se fosse o ovo de Colombo. Besteira! Quer mais empreendedorismo que nossos ancestrais? Cavavam trilhas e caminhos no meio da mata paraContinuar lendo “DOLCE VITA”

Meu corpo!!!!

por Ana Karina Manson Ela tinha 9 anos quando um amigo do pai disse: — Está crescendo, vou te esperar para casar com você. Era uma brincadeira, que o pai respondeu dizendo que tinha uma espingarda e outras coisas que se acostumou a dizer, ele e os outros tantos homens na sociedade que enxergavam oContinuar lendo “Meu corpo!!!!”

Mãe-da-rua

Arlete Mendes- O range-range a afinar os punhos da rede compete com o  firimfim da Cruviana*. O chiado das alparcatas no compasso ralentado de Dona Neném. O rezo orquestrado nos galhos da arruda cosquenta de Dona Sinhá. -Xiu, num ria, sua buliçosa, se aquiete! O canto vocalizado entre voo e pouso de quem nunca deixouContinuar lendo “Mãe-da-rua”

Onde as louças moram?

Ana Karina Manson Quando ela era criança odiava guardar a louça. Cresceu e continuou odiando. Mas guarda quase diariamente. A louça não toma banho sozinha, tão pouco sabe andar até máquina de lavar. Quando menina, pensava que guardar a louça era uma espécie de serviço subalterno. O principal era lavar. Só os maiores podiam mexerContinuar lendo “Onde as louças moram?”

Pequeno-grande amor

Ana Karina Manson Estavam na cama a menina de cinco anos e a mãe, quando a pequena sem a olhar disse “Mãe, o Tim Maia tem razão”. A mãe, como deve parecer óbvio, estranhou a afirmação da filha que falara como se conhecesse pessoalmente o Tim Maia, como se fosse alguém com quem tivesse conversadoContinuar lendo “Pequeno-grande amor”

Damiana

-Mara Esteves Damiana era exímia em roubar frutas do pé.  Pulava muros, cercas e trepava em galhos finos. Enfrentava sem medo todos os obstáculos em sua frente, mesmo que para isso fosse preciso fazer malabares no ponto mais alto da copa de uma árvore, se equilibrando e segurando com uma mão um dos galhos paraContinuar lendo “Damiana”

Farofeiros

Arlete Mendes- Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguida de um enterro com ladainhas: “formiga, formiguinha, leve oContinuar lendo “Farofeiros”

A menina que lê

por Ana Karina Manson “Todo dia ele faz tudo sempre igual”: sobe a Estrada do Campo Limpo com seu livro nas mãos sem tirar os olhos das palavras que balançam no ritmo do seu caminhar. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”: desce a Estrada do Campo Limpo ansiosa em vê-lo mais ainda, em verContinuar lendo “A menina que lê”

Menino-pai

Ana Karina Manson A ideia de perder meu pai é algo que não consigo explicar, menos ainda entender. Como entenderia viver neste mundo sem a pessoa que me protege, me defende? É contraditório: foi ele quem me ensinou o que é certo, mas me defende mesmo quando estou errada. Costumo pensar em tudo que eleContinuar lendo “Menino-pai”

Cabeça, olhos, joelho e pé…

Carolina Tomoi – Aquele quintal era tão grande, tão grande que uma vez desci rolando umas sete exageradas vezes, para pessoa que não contava mais que os dedos de uma mão. Parei de encontro ao muro, ainda bem que o freio foram as costas mesmo que o mundo teimasse em continuar a girar. Lá estatelada,Continuar lendo “Cabeça, olhos, joelho e pé…”

Dolce vita?

Arlete Mendes– Ouço tanto falar de empreendedorismo, muitas vezes para escamotear relações trabalhistas precarizadas, babam tanto nessa palavra como se fosse o ovo de Colombo. Besteira! Quer mais empreendedorismo que nossos ancestrais? Cavavam trilhas e caminhos no meio da mata para interligar paisagens, aldeias e os parentes. O grande caminho, além fronteira, extra terra brasilis,Continuar lendo “Dolce vita?”

João de Barros

Arlete Mendes- Manhã fria, nos aquecíamos com um disco e um café com tapioca. Ela sempre sol… -Mãe, quem é que fez essas músicas ? -Foi o Vinícius, filha, um poeta. -Ele é seu amigo? – Nunca fui muito amiga do Vinicius, gostava das canções e de um ou outro poema… -Não, filha. -Ele trabalhaContinuar lendo “João de Barros”

Derradeira primavera

Elisa Dias – Eu carrego comigo uma alma saudosista que vive revirando as gavetas do meu passado. Memórias sempre são revividas e acessá-las me traz um misto de sensações que é difícil descrever. Chego tão fundo dentro de mim que sempre me afogo no mar que sou, um oceano profundo de recordações e velharias. ÉContinuar lendo “Derradeira primavera”