Celane Tomaz

Sou professora de Língua Portuguesa e alfabetizadora. A literatura sempre esteve presente em meus trabalhos de pesquisa e estudos realizados desde a graduação em Letras, além de ser leitora intensa e fiel de Poesia. Escrevo poesia autoral há algum tempo e, após iniciar a divulgação dos meus textos, comecei a me inscrever em concursos e ter meus textos selecionados para antologias de editoras diversas. Recentemente, fui uma das poetas selecionadas para o curso livre de novos escritores da Casa das Rosas (CLIPE 2020).
A publicação do meu livro de poemas é um projeto que espera o seu tempo.

“É preciso coragem para lançar-se no mundo com a nudez que nos veste, enquanto ser que escreve . Permitir ser despida pelo verbo exige de nós a entrega para o ousado erotismo da palavra.”

contato: celanestomaz@gmail.com

amor

“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.” Clarice Lispector por Celane Tomaz “eu sou o amor”ouviu e paroudiante da frase dita pela protagonista do filme visto no cinema numa despretensiosa tarde de terça-feira. tantos olhos todos os dias podem nosContinuar lendo “amor”

a sós

por Celane Tomaz lembro-medas tantas que eu era, enquanto transito entre as outras e tateio seus mundos.mesmo assim, estou a sós. da minha noite, mesmo nos escuros do dia, adentro a luz que me devolve a mim, a luz que me gera, a luz que me lembra que estou viva.dou a mim da minha própriaContinuar lendo “a sós”

sobre a morte em vida

“se não fossem os fios de seda que costuram a outra vida de viver em linhas de escrever, morreria mais um pouco  do que já se morre todos os dias” Celane Tomaz é preciso falar da morte. e do tanto que se morre junto quando algo morre ou alguém. e o tanto de morte queContinuar lendo “sobre a morte em vida”

Queria um dia de sol

por Celane Tomaz queria um dia de soldaqueles que me faz esquecera nebulosidade de serque faz sentir na pelea vivacidade de existire arder o lugarque ocupo. queria um dia de solmodificando a cor da epiderme,sentindo lentamente meu corpofiltrando o calor de estar no mundo. queria um dia de sola vida acesa nas vozes,no concreto queContinuar lendo “Queria um dia de sol”

Move-te em ti

“tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.”H.H. se eu pudesse ser pássarobastar a asa para seralcançar o mundo, apesar de miúdolivre, apesar de frágildançar na terrarodopiar no céuser pássarode canto cobiçado no silêncioaos ouvidos atentos e sensíveisao canto do meu cantoritmado de (a)manhã. se eu pudesseContinuar lendo “Move-te em ti”

DESFIGURADO

Texto publicado originalmente em 31 de outubro de 2020 Celane Tomaz- Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz EuContinuar lendo “DESFIGURADO”

PAI?

Texto publicado originalmente em 13 de agosto de 2020. Celane Tomaz– Era junho e os velhos dias cinzas de outono renovavam as folhas e desbotavam o tempo. Minha mãe, sempre tão doce e amável, aguardava por tantos dias – azuis, alaranjados e cinzas – a vinda da família para a semana de visitas. Era umContinuar lendo “PAI?”

BANHO DE MAR

Texto publicado originalmente em 15 de maio de 2020. Celane Tomaz- Era uma tarde de outono quando decidiu expor sua raiz. O céu já estava  assimétrico, retocado e abstrato em azul- lilás e alaranjado ardente. Assim  também seu corpo – folha seca, porém intacta, resistindo a varredura do caos. Talvez sua pele pálida precisasse deContinuar lendo “BANHO DE MAR”

Poeticamente selvagem

“apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:come às vezes na minha mão.” Clarice Lispector, em Perto do coração selvagem por Celane Tomaz tantas tardes deformadas em ventaniae há um cheiro de chuva que se insinua. nesta terra,sinto-me muda de planta carnívoraa morrer-nascer entre espinhos.sinto-me raiz expostadispostaContinuar lendo “Poeticamente selvagem”

Garoa

“Aos olhos nus, não passava de uma chuva repentina, mas aqui dentro…”  Clarice Lispector por Celane Tomaz olhe pela tua janela.chove sobre a madrugada calada. a chuva molha o início da manhã.repare nas gotas que se mantêm e as que escorrem pela vidraça, resistindo à vida breve, mantendo-se firmes em água frágil. goteja como seContinuar lendo “Garoa”

A noite espia

por Celane Tomaz ouça meus olhos.bebo desta meia luz disforme encobrindo teu rosto, dando forma tua facena minha. pausas burburinhos acomodadas nas luas de sempre. dividimos o cálice da transparência que nos esconde. há tanto vermelho envolvido, vivo por todos os lados. acaricio todos os teus emaranhados – da tua barba salgada à tua almaContinuar lendo “A noite espia”

Parir do verbo

“Cai a lua, caem as plêiades eÉ meia-noite, o tempo passa eEu só, aqui deitada, desejante.” Safo por Celane Tomaz ProcuroA palavra carregada e a precipitação dos meus ruídos.O pensamento se condensa na extensão de impalpáveis burburinhos.Uma alma de poeta inquieta, uma alma inquieta de poeta! O corpo se contorce com o pulsar dos versos-açoites.Continuar lendo “Parir do verbo”

diabo-deus, o pensamento

“Não há devassidão maior que o pensamento.Essa diabrura prolifera como erva daninhanum canteiro demarcado para margaridas.” Wislawa Szymborska por Celane Tomaz pensar para existir. dispenso. por vezes queria a vida-possível que habita o não pensar-me. existir sem a força e a dor de atribuir sentido ou razão de ser. apenas existir. mas no profundo mistérioContinuar lendo “diabo-deus, o pensamento”

de Ser

das tentativas de decifrar-se,da lucidezde compreender-se nas mutações.do querer caber no verbo(s).e sóexistir nos vãos das palavras.sentir é imenso. por Celane Tomaz é um doer de ossosexpandir-se um respirar ofegantedilatar-se é um perder sentidoscompreender -se entregar-se às dúvidasdespertar-se tatear a ousadiadesprender-se sentir o corpo rígidodesmanchar -se deixar a voz ecoarexercer-se um calar insanopensar-se (re)moldar (d)oContinuar lendo “de Ser”

Desfigurado

“Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz Eu não queria ver no espelho o teu rosto desfigurado. A tuaContinuar lendo “Desfigurado”

Gestar

Depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco. Alice Ruiz por Celane Tomaz Gerar é entrar em contato com a vida da forma mais crua e humana. O corpo dá forma a outro corpo – tão potente e presente, com a força e a ousadia de estar neste mundo. O corpoContinuar lendo “Gestar”

Face a faces

“fui mulher vulgar,meia-bruxa, meia-fera,[…]malandra, bicha,bem viada, vândala,talvez maquiavélica,e um dia emburrei-me mas tantas, tantas fiz” Ana Cristina César por Celane Tomaz tantos rostos mudoshabitam na confidênciade um corpo intocado.tantas faces cruas se entreolhamno espanto de um despertar em ruídos.como num relancecabem no ajuste do poemalimitados em linhas frágeis,irrevelados seres tênues. face ante as facestantos poetasContinuar lendo “Face a faces”

Corpórea

Colada à tua boca a minha desordem.O meu vasto querer. Hilda Hilst por Celane Tomaz Vestida de noiteEstrelas-ardênciasDeslizam entre minhas pernas. Despida em malíciaNua sobre o teu corpoO eclipse de almas é lunar. Gritas o diaSobre meus seios-montes de silêncio. Escorro de desejo-orvalhoNa aurora da manhã. Meu sol queima tua peleE o meu calor rompeContinuar lendo “Corpórea”

Esperas

a teia, nãomortamas sensitiva, vivente nocentroa aranha espera. Orides Fontela por Celane Tomaz Enquanto pacientemente cuidava da cicatrização da cirurgia do meu menor, pensava na escravidão da espera.Todos esperam. Não há escolha, desde aguardar água a ser fervida para o café, até a passagem do ano em que ilusoriamente tudo mudará. Não há para ondeContinuar lendo “Esperas”

Prece

À infância, à pequenez, à vida recém-sentida por Celane Tomaz À vida, devolva-me a infânciaos lábios melados de doce favoritoa face rosada do dia de solo medo vão do abandono e do escuroa inalcançável noção do que era a morteo não saber contar o tempo. dai-me os meus primeiros anoso cansaço dos pulos e dasContinuar lendo “Prece”

Perdoai

Celane Tomaz – De tanto me pensar – quando há tempo – é que a culpa me acolhe nos braços e me aperta com suas potentes mãos. Encolho-me dentro dela como se compreendesse e aceitasse que ela nasceu comigo quando menina, mãe e mulher. Os fios desordenados do cabelo, a roupa velha e qualquer, asContinuar lendo “Perdoai”

retrato de domingo

por Celane Tomaz dos dias que são retratos do ser. das sensações e percepções que nos traduzem. o domingo acordou assim, como sempre, no silêncio estendido. um despertar demorado, um cansaço invisível. outro tempo incontável ou um viver sem ele, que não nos obriga neste agora a uma razão ou um sentido. se respira, apenas.Continuar lendo “retrato de domingo”

É só uma menina, só

por Celane Tomaz dos olhos que nunca a viramescorre a lágrima– de uma também menina –que compreende o medo impronunciávelde sermulher. tantos são os pesosao carregar um úterotantas são as mortespor poder gerar vida. uma criança não é mãe!uma menina é uma menina!teu rosto preservado é reconhecidonas faces das outras mulheres. há rastro de sanguesobreContinuar lendo “É só uma menina, só”

Pai?

por Celane Tomaz Era junho e os velhos dias cinzas de outono renovavam as folhas e desbotavam o tempo. Minha mãe, sempre tão doce e amável, aguardava por tantos dias – azuis, alaranjados e cinzas – a vinda da família para a semana de visitas. Era um daqueles domingos. Doídos. Meu pai, com seu porteContinuar lendo “Pai?”

Cerejeira, cerei, cer

Licença poética no título. Ao tanto que cabe, que se é permitido no Ser: sonora e metaforicamente. por Celane Tomaz Nunca sei quando uma flor há de morrer ou nascer. O que me aduba é a espera pelos dois – dualidade vivida da ponta da pétala até as rígidas raízes entre terra e escuridão.Resisto àContinuar lendo “Cerejeira, cerei, cer”

Outra flor em náusea

por Celane Tomaz (singelo diálogo com A flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade) as lágrimas de cada manhãencharcam a secura desse tempo.a terra agoniza e sangrasob a chama e os violentos cortesdos decretos- facões que a rasgam em silêncio. a vida está sobre a mesafarta de fatos, cálices cálidos.homens jejuam a umContinuar lendo “Outra flor em náusea”

A sensível

por Celane Tomaz Dirigia, como sempre, sem poder dar muita atenção à sobrevivência desordenada da cidade que a cercava. De súbito, logo pensou e, veementemente acreditou, mesmo compenetrada, que o seu olhar a salvava. Com os olhos atentos às luzes, ao asfalto e ao fluxo monótono de veículos e de existência, compreendia que seu olharContinuar lendo “A sensível”

Uma mulher

por Celane Tomaz Começou com a noite mal dormida. Um pesadelo a fez acordar muito inquieta, com um peso sobre o peito.Observou a noite se tornar dia. Enquanto se arrumava para se lançar à rotina, conversava com Maria e explicava os espaços vazios e desarrumados da casa. Tomaram café da manhã juntas por bastante tempo.Continuar lendo “Uma mulher”

Casa

por Celane Tomaz O barulho tímido da chuva ritma o compasso de um novo tempo. O dia sem cor, o céu anuviado de cinza, amanhecido na frieza dos sopros que embalam os dias e, ainda assim, os braços que esperam são de outra estação.São tardes, noites e manhãs sempre tão iguais, vividas numa espécie deContinuar lendo “Casa”

Um despertar

Celane Tomaz- Acordei com a claridade atravessando a minha janela. Os raios solares cortavam a parede oposta. Já era tarde para a minha consciência recém apreendida e para os meus sentidos quase agora recuperados.  Meu corpo, ainda sobre a cama macia, livra-se aos poucos do peso da dormência. Ainda é lento o movimento que façoContinuar lendo “Um despertar”

Mãos pretas

Como ler estas mãos pretas?De linhas tecidas jamais lidasCalejadas por outra História? Como ler estas mãos pretas?Outrora de sonhos partidosGeradas em dolorosas memórias Como ler estas mãos pretas?Pretas de sangue moídasPretas de dores vermelhas Como ler estas mãos pretas?De tantos negreiros naviosDe tantas almas presas Como ler estas mãos pretas?Que repousam na folha os diasContinuar lendo “Mãos pretas”

A nua

Celane Tomaz- Na justeza de sua ainda breve vida e dentro dos limites do contorno que separava sua vívida consciência de seu corpo- matéria, tinha anseio por saber sua grandeza. Era mais uma segunda-feira refém do tempo, frente a seus ponteiros. Seu cheiro de banho fresco exalava pelo quarto, suave e limpo. Sem estar pronta,Continuar lendo “A nua”

Eu menina

Celane Tomaz – Quando bem menina pensava que tudo era enorme, quase sem medida e infinitamente maior do que a mim. A extensão da rua, os portões das casas, a cabeça das pessoas adultas, o alcance do céu. Tudo era imenso e eu sempre tão inclinada e tão fragilmente curiosa, mas não da altura dosContinuar lendo “Eu menina”

Escrevessência

Celane Tomaz – “Escrever é dar movimento à dança-canto que meu corpo não executa. A poesia é a senha que invento para poder acessar o mundo.” Conceição Evaristo, em Cadernos Negros 25 Apesar de estáticas e imutáveis as palavras desse texto, nele ecoa a minha voz sem tempo. A minha voz, única e por vezesContinuar lendo “Escrevessência”

Banho de mar

Celane Tomaz – Era uma tarde de outono quando decidiu expor sua raíz. O céu já estava  assimétrico, retocado e abstrato em azul- lilás e alaranjado ardente. Assim  também seu corpo – folha seca, porém intacta, resistindo a varredura do caos. Talvez sua pele pálida precisasse de dias mais intensos de sol, mas tinha emContinuar lendo “Banho de mar”

Enquanto ainda

Celane Tomaz – À todas as mães, mulheres de força descomunal. É madrugada nos dias iguais. Seu filho acorda repentinamente e esbarra no medo que invade seus pensamentos sobre o dia que ainda não amanheceu. Em passos leves e rápidos, sem sinais de avisar, ele vem em minha direção. Desorientado, inseguro, atordoado – assim comoContinuar lendo “Enquanto ainda”

O pássaro

Celane Tomaz – Um pássaro pousou na minha varanda. Rompeu a minha vista das cores do fim da tarde. Seu repentino pouso foi ruptura do instante do meu monótono hábito de observar e endeusar o céu – a sua morada. Corpo miúdo, pisada frágil e olhar atento. Cabia na concha das mãos, mas com tudoContinuar lendo “O pássaro”

Uma manhã a mais, a menos

Celane Tomaz – Hoje acordei sobre os tantos mundos que me cabem. Olhei a mim, corpo vivo, matéria de calor e movimento entre as paredes claras e estáticas da casa.  A limitada extensão do espaço presenciava o meu grito pela vida do seu lado de fora. Diante do espelho, observei a pele rosada e maciaContinuar lendo “Uma manhã a mais, a menos”

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