O pássaro

Celane Tomaz – Um pássaro pousou na minha varanda. Rompeu a minha vista das cores do fim da tarde. Seu repentino pouso foi ruptura do instante do meu monótono hábito de observar e endeusar o céu – a sua morada. Corpo miúdo, pisada frágil e olhar atento. Cabia na concha das mãos, mas com tudoContinuar lendo “O pássaro”

Desterradas

Arlete Mendes – Desde que me entendo por gente eu escrevo, escrevia até quando nem sabia juntar as letras e decifrar o código. Escrever é ir além do código. Este é apenas o trem que se pega rumo ao destino, sempre inesperado… Aprendi a escrever com minha mãe, ela escrevia histórias de aventura com seuContinuar lendo “Desterradas”

Eu terrorista

Jesuana Sampaio – A minha parte terroristapensava em uma bomba. Não sou tão boa assimque o mal não me habitee descompasse. A diferença é que pra issome falta coragem.A ideia cristã de pecado,de defesa da vidanão me deixa tirar a vidados que pouco se importamcom as nossasvidas. Eu terrorista,sem piedade,tacava fogo no mundo[no mundo deles].

Trombas d’águas

Ana Karina Manson – Há alguns anos visitei Paraty e, não sendo a primeira vez, já conhecia a beleza da cidade, o clima agradável, a parceria entre história e cultura que nos invade pelos poros sem que percebamos. Todavia, nessa visita em questão o que me invadiu foi algo que tenho dificuldade em explicar. PoisContinuar lendo “Trombas d’águas”

Virada de ano em Maceió

Juliana da Paz – Foi uma noite de festa. Toda nossa pequena rua Marcos Aurélio na casa da Vânia, esposado finado Cícero. Lá sempre ocorriam grandes festas com forró e axé das 19hs às 4hs da manhã. Todas as famílias da ruazinha comungavam da falta de solidão. Tinha caldo de mocotó, sarapatel, cerveja refrigerante, muitosContinuar lendo “Virada de ano em Maceió”

Nó da madeira

Thata Alves – O nó é aquilo que deixa firmado. Consiste em apertar o que está frouxo… é o ato de estreitar. Madeira? Ah… Madeira já é a comida que como. Não necessariamente mastigar a viga, mas em toda minha vida, a madeira nos alimentou. Respondi, quando me perguntaram, numa aula de filosofia, sobre oContinuar lendo “Nó da madeira”

Castelo de areia

Elisa Dias – Acho que acreditei muito nos contos de fada, fui criança sonhadora, comprei todas as minhas economias a ideia do “felizes para sempre”. Foi quando num susto você surgiu forasteiro, era um turbilhão de sensações e sentimentos. E num pé de vento carregou meu castelo de areia, meu alento. Que era tão sólidoContinuar lendo “Castelo de areia”

Uma manhã a mais, a menos

Celane Tomaz – Hoje acordei sobre os tantos mundos que me cabem. Olhei a mim, corpo vivo, matéria de calor e movimento entre as paredes claras e estáticas da casa.  A limitada extensão do espaço presenciava o meu grito pela vida do seu lado de fora. Diante do espelho, observei a pele rosada e maciaContinuar lendo “Uma manhã a mais, a menos”

Mulinha

Carolina Tomoi – Eu sempre digo pra ela, eu não sei escrever. Mas ela insiste. Ela é insistente… docemente insistente. E quem pode dizer não a ela?! Daí ela pediu uma leitura, eu fiz, foi fácil! Pra ela, é claro! Porque pra mim… ferrugens… seculares. Agora vem com essa. Escreve aí, como se fosse fácil,Continuar lendo “Mulinha”

Elas contra Tebas

Arlete Mendes – Como vim parar nessa descaração de me mostrar nuinha em prosa e verso? Tem alguns que me empurraram para essa sem-vergonhice, quiçá ela já estivesse em mim. Daí para a gente arrumar mais algumas despudoradas foi um pulo. Assim nasce nosso descaramento coletivo. Elas contra Tebas. Deixamos de ser “essa espécie envergonhada”Continuar lendo “Elas contra Tebas”

Uma dor e uma voz coletiva

Jesuana Sampaio – Uma vez, no início da minha juventude, vivenciei uma situação abusiva ao terminar um relacionamento. Aquele rapaz, que se dizia meu companheiro, no auge da sua possessão e imaturidade ameaçou matar um amigo meu do qual ele tinha ciúmes, caso eu não voltasse para ele. Naquele momento, dentro de mim soou umContinuar lendo “Uma dor e uma voz coletiva”

Pelas despedidas

Ana Karina Manson – Quando ele falou com olhos marejados sobre as tantas mortes em um país distante, cujo funeral para a despedida dos familiares é impedido, ela navegou nesse mar que nele brotava e viu seu medo de ser um desses. E também ela temeu nunca mais abraçá-lo e menos ainda cumprir o ritualContinuar lendo “Pelas despedidas”