Mãe-da-rua

Arlete Mendes- O range-range a afinar os punhos da rede compete com o  firimfim da Cruviana*. O chiado das alparcatas no compasso ralentado de Dona Neném. O rezo orquestrado nos galhos da arruda cosquenta de Dona Sinhá. -Xiu, num ria, sua buliçosa, se aquiete! O canto vocalizado entre voo e pouso de quem nunca deixouContinuar lendo “Mãe-da-rua”

Fragmentário viver

Por Juliana da Paz Tenho vivido a poesia em mim, no mundo e nas ideias. Muitas ideias. O cansaço dos dias, mesmo este, tem sido um bálsamo de humanidade no dia-adia que se passa. Cenas figuram e inesperados se precipitam em minha corrida contra o tempo, sem-dinheiro, indecisão, congestionamento, Mãe, insônia, amor-cadê-você?, desculpa, que alegria,Continuar lendo “Fragmentário viver”

Onde as louças moram?

Ana Karina Manson Quando ela era criança odiava guardar a louça. Cresceu e continuou odiando. Mas guarda quase diariamente. A louça não toma banho sozinha, tão pouco sabe andar até máquina de lavar. Quando menina, pensava que guardar a louça era uma espécie de serviço subalterno. O principal era lavar. Só os maiores podiam mexerContinuar lendo “Onde as louças moram?”

Eleições

Carolina Tomoi- Me lembro do dia que fui buscar meu título, tinha 16, era um dia muito ensolarado como a esperança cultivada num Brasil jovem, que tinha tudo para brilhar feito estrela. Em meio àquela restrita constelação de 26 pontos a cintilar na bola azul, ainda não havia aparecido nenhum Sol que brilhasse para todasContinuar lendo “Eleições”

Vendetta

Arlete Mendes- -Não sei, já disse que não sei. – Estava ali ontem mesmo. – Vida é movimento… -Livros não se movem. -Você que pensa. Já vi muitos saírem correndo, gritar palavrões, esmurrar, dar chutes, tiros e facadas. -Gracinha. -Obrigada! -Passa o pão. Vou ficar com artigo emperrado, parei numa citação de cabeça, precisava doContinuar lendo “Vendetta”

Nós, naturalmente…

Por Juliana da Paz Era madrugada e o sono não vinha. Uma dor que me apertava as têmporas, o esternocleidomastóideo e todas essas nomenclaturas de músculos que compõem as costas e o pescoço, subindo ouvidos e cabeça acima. Esses que são conteúdos escolares, mas não fazemos questão de conhecer de verdade até que doam. AContinuar lendo “Nós, naturalmente…”

Pequeno-grande amor

Ana Karina Manson Estavam na cama a menina de cinco anos e a mãe, quando a pequena sem a olhar disse “Mãe, o Tim Maia tem razão”. A mãe, como deve parecer óbvio, estranhou a afirmação da filha que falara como se conhecesse pessoalmente o Tim Maia, como se fosse alguém com quem tivesse conversadoContinuar lendo “Pequeno-grande amor”

Festa, festa. festa…

Carolina Tomoi- Festa, festa, festa… o que poderia ser melhor que uma boa festa? É certo que as melhores são aquelas que simplesmente acontecem. Todo bom festeiro sabe como é: bastou o cansaço da semana, calor ou frio, não importa. Mas no calor dá para espalhar a galera no quintal. Cada um traz sua meiaContinuar lendo “Festa, festa. festa…”

Amarelo

Arlete Mendes– Acordei macambúzia naquele dia nublado, mas ao te ver em vivo e espantoso sol, não contive o grito de alegria. Sim, tu ousaste, quando já havíamos perdido a esperança. Final de outubro, três anos sobre o duro solo, pouco sol, escavações caninas ao redor, a obra que se estende infinita, sem contar osContinuar lendo “Amarelo”

Desta vez, vou deixar morrer o amor

            Espero por todo o tempo um cuidado que me acaricie. O vento o faz. Uma constância da busca pelo abraço que me aconchegue, encontro no sol. Suas vestes pelo chão não foram gastas comigo. Nossos olhos pouco se tocam, negros olhos que pouco se cruzam. Nunca mais eu me perdi em emaranhados de cabelos,Continuar lendo “Desta vez, vou deixar morrer o amor”

UM Menino

Carolina Tomoi- Dois anos se passaram desde que o casal decidira que teriam a segunda filha. Calculadas as probabilidades genéticas, a mãe estava certa que conceberia outra menina. Porém, a essa altura do campeonato não esperava mais nada… fazia tanto tempo que combinava o calendário com preservativos que esquecera do antigo projeto: a irmãzinha! NenhumaContinuar lendo “UM Menino”

Mãe de menino

Por Juliana da Paz A maior sensação de paz materna que se aporta em meu peito é vê-lo dormindo. É um sono lindo e cheio de saúde, abrigo, esperança e amor. É um sonho.             Eu deito e sonho também! “Observar que nossa sociedade foi fundada nesse sofrimento, nessa dor que é para os homensContinuar lendo “Mãe de menino”

o ser e o nada

Arlete Mendes- Tenho impulsos para o nada. Sou atraída pelo vazio que transpassa a silhueta das árvores, pelo canto ainda não ecoado dos pássaros e pelo desejo da palavra ainda não irrompida. Há uma força de empuxo que me leva para os vãos, para o vazio que há entre os seres, matéria constituinte da órbitaContinuar lendo “o ser e o nada”

A minha criança

Jesuana Sampaio Certo dia um mago me disse que deveríamos saber qual o primeiro chá que tomamos na vida para assim nos conectarmos com a nossa criança interior. Peço licença a criança que fui para tomar mais uma vez o chá de erva doce e voltar no tempo para ninar a criança ferida que meContinuar lendo “A minha criança”