Vermelhos

Carolina Tomoi – A mulher transforma-se gradativamente. E de objeto da tragédia masculina converte-se em sujeito de sua própria tragédia. Alexandra Kolontai, A Nova Mulher e a Moral Sexual Um telefonema a acordou. Estivera bem? Chegara bem em casa? Explicou que sim, excetuando as típicas dores nos pés após as caminhadas do dia anterior. MasContinuar lendo “Vermelhos”

Fez entendedô?

Jesuana Sampaio – “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”Paulo Leminski Naquele dia eu não queria falar. Queria ser abençoada e ouvir as sabedorias do Caboclo Pai Guarani. Ele sentiu. Não precisei dizer nada. Quis saber as ervas que me acompanhavam, falei: bergamota e hortelã. Acenou positivoContinuar lendo “Fez entendedô?”

Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro

Celina Simões – Veio estar comigo a Penha. Disse ela com lentidão, que a última pedra de sabão caseiro feito pela nossa mãe ia ser colocada para uso e mais disse ela: isso dá uma crônica. Penha é minha irmã mais velha. Nasceu em 1946 e ser irmã mais velha no seio de uma proleContinuar lendo “Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro”

sobre a morte em vida

“se não fossem os fios de seda que costuram a outra vida de viver em linhas de escrever, morreria mais um pouco  do que já se morre todos os dias” Celane Tomaz é preciso falar da morte. e do tanto que se morre junto quando algo morre ou alguém. e o tanto de morte queContinuar lendo “sobre a morte em vida”

Maioridade Materna

Carolina Tomoi – Às de colo vazio, latente Aos que perderam o colo. Creio num momento no corpo da mulher que uma voz tão intensa fala tão alto uníssono a cada célula de seu corpo que é difícil resistir. A maioria não resiste. Algumas nem tomam ciência que seja possível desistir, deixam o corpo asContinuar lendo “Maioridade Materna”

Deus dos que matam os que tem fome.

-Mara Esteves 28 de fevereiro. Último dia de um mês que o ritual da catarse carnavalesca não veio. Sinto que sem o carnaval não há quaresma. Não há redenção e nem o equilíbrio entre o profano e o sagrado. Parece até que Deus nos abandonou. Ou pior, desistiu de nós. Custa muito acreditar que oContinuar lendo “Deus dos que matam os que tem fome.”

Devaneio da chuva de hoje de manhã

por Celane Tomaz há fluxo em mim e lá fora.há tempos não acordo com a torrente de tanta chuva. e aquele barulho ininterrupto, que de prontidão e escuta atenta, vivo e reparo dentro do oscilante movimento entre a maior e a menor intensidade, advinda da mesma força uníssona, mesmo quando não há raio ou qualquerContinuar lendo “Devaneio da chuva de hoje de manhã”

Casa de Marimbondo

*Arlete Mendes- Ganhei a obra completa da Virgínia Woolf. Só engoli dois romances. Não tive estômago para o resto. Tenho mais livros que consigo comer, mais fome do que consigo satisfazer, mais filhos do que posso gestar, mais amigos do que posso cuidar, mais sentimento do que consigo compreender, mais corpo do que consigo carregar.Continuar lendo “Casa de Marimbondo”

Chi Kung

~Por Raíssa Padial Corso Todos os movimentos indicam para a direita, logo mais a esquerda.  Se acalme que tudo tem múltiplos lados,  a ignorância é o que mais se pende.  Não querer saber é o que detém uma grande fatia populacional,  não saber que quer saber foi o “presente” colonial.  Esquecer que a mão sabe escrever é  uma blasfemia com os movimentos.  O movimento pendia VA-GA-RO-SA-MEN-TE, era o cisne, a respiração demorada,  alongaaaaaaada, abria camadas neuronais de percepção, o TAO do Chi.  Acontecendo como sempre acontece,  expandindo, expandindo, expandindo…  O queixo desce ao peito, o timo, tum, tum, tum, tum, tum, tum,  vibração contínua,  abrindo espaço para melhor vibrar.  O ritmo para mim,  sempre foi a lei mais difícil de se abstrair.   Para compreender por onde essa vasta mente anda,  há de se ter ritmo.  Minhas ondas abrigam muitos passos, rotações,  planos paralelos…  O pé deve se levantar lentamente, a  perna esquerda flexionada. Se concentrar apenas nisso,Continuar lendo “Chi Kung”

Um Brasil sem carnaval

-Mara Esteves “Eu não vou chorar Senão a maquiagem vai borrar Lúcifer está batendo em minha porta PEC, PEC, PEC, PEC, PEC que pariu PEC, PEC, PEC deram um GOLPE no Brasil”. ( Marchinha: Agora Vai é Pé no Chão e Rua – Bloco Agora Vai/ Ano 2017) Neste ano o apito, o tambor eContinuar lendo “Um Brasil sem carnaval”

No vagão

Arlete Mendes- Estou em meio à multidão. Tenho os olhos fixos nas faces. Sempre ocultadas. Ninguém exibe a própria face. Máscaras por cima de máscaras. Que mistérios guardam dentro de si? O que temem revelar? De vez em quando ouço o que dizem. Falam sobre o personagem da novela, reality show, sobre o time deContinuar lendo “No vagão”

GRAFIAS DE MULHER

Texto publicado originalmente em 06 de dezembro 2020. “A noite não adormece nos olhos das mulheres”  Conceição Evaristo Solange Amorim- Ela caminhava ofegante e seu corpo parecia ranger. Carregava um cansaço imenso. Cabelos  curtos e grisalhos, olhos pequenos e nevoados,  avermelhados pela acidez de São Paulo. A retina esquerda aparentava conter uma pequena cicatriz que Continuar lendo “GRAFIAS DE MULHER”

DESEJO

substantivo masculino (?!) aspiração, querer, vontade expectativa de possuir ou alcançar algo. Texto originalmente publicado em 16 de agosto de 2020. Mara Esteves– Meu corpo é morada de desejos, até mesmo de desejos que não nasceram em mim. Estes, busco reconhece-los e me despeço a cada dia. São ecos de outras vozes, querendo ditar oContinuar lendo “DESEJO”

FORASTEIRO

Texto publicado originalmente em 09 de desembro de 2020. Elisa Dias- Estávamos frente a frente, eu titubeava, as palavras faziam rodeios na tentativa  de camuflar a minha aflição, meus anseios  e receios, com meus sentidos paralisados e meus instintos  famintos da fome do homem, salivava ao lembrar o gosto da sua saliva, entre palavras e risos eu  criava umContinuar lendo “FORASTEIRO”

DESFIGURADO

Texto publicado originalmente em 31 de outubro de 2020 Celane Tomaz- Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz EuContinuar lendo “DESFIGURADO”