Desobediências

Ana Karina Manson Ela teve dois filhos de um casamento que durou pouco. Ficou viúva. Viúva. Mulher viúva, jovem, naquele tempo, não podia. As pessoas podiam falar. E também como sustentar as duas crianças sozinha? As poucas oportunidades que apareciam eram para mulheres solteiras e sem filhos. Ela era um ser estranho na sociedade hipócrita,Continuar lendo “Desobediências”

Damiana

-Mara Esteves Damiana era exímia em roubar frutas do pé.  Pulava muros, cercas e trepava em galhos finos. Enfrentava sem medo todos os obstáculos em sua frente, mesmo que para isso fosse preciso fazer malabares no ponto mais alto da copa de uma árvore, se equilibrando e segurando com uma mão um dos galhos paraContinuar lendo “Damiana”

Farofeiros

Arlete Mendes- Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguida de um enterro com ladainhas: “formiga, formiguinha, leve oContinuar lendo “Farofeiros”

Armadura

-Mara Esteves Caminhava estampando em seu rosto, o maior sorriso que podia existir. Seu sorriso flecha, armadura e acalanto, que apesar de guardar um bocado de dores e desamores, reluzia riso farto de alegria. Iluminava até quem mais nublado caminhava pela vida. Os mais tolos, ofuscavam as vistas e faziam seus julgamentos: condenando que suaContinuar lendo “Armadura”

Hoje é dia de maldade ou Até que a morte os separe

Carolina Tomoi- Eram duas pessoas ruins. Estavam bem disfarçados como um casal pacato e receptivo a vizinhos, parentes e amigos da vida toda. Mas quem os observasse de perto, notaria as grandes crueldades que habitavam aquelas mentes ardilosas. Tinham um tipo de pacto silencioso que escondia aquele segredo até deles mesmos. Sabiam como eram tratadasContinuar lendo “Hoje é dia de maldade ou Até que a morte os separe”

Histórias esquecidas

Ana Karina Manson– Na juventude ela lia histórias das quais nem se lembra. Às vezes nem lembra que lia. O gosto pela leitura é uma lembrança do tempo em que pensava que viveria de amor. Depois descobriu que amor não enche panela, não veste criança, não garante a água na torneira e nem a claridadeContinuar lendo “Histórias esquecidas”

Vida de pobre II: Sacolinha de mercado

Carolina Tomoi- Vida de mulher é aquela coisa… tanto trabalho desde que abre o olho que às vezes tenta fingir que está dormindo para enganar a si mesma que o dia de trabalho ainda não começou. Mas sua consciência é seu próprio relógio de ponto, patrão e cliente mais exigente. Lembrou que na segunda oContinuar lendo “Vida de pobre II: Sacolinha de mercado”

Cânone

Elisa Dias- Eu anseio pela hora de descarregar na força dos músculos dos seus braços a minha exaustão da vida, o peso da saudades, prender minha fragilidade entre suas pernas, a ponto de sentir o sangue passeando por suas veias e artérias. Quero dançar em 6 por 8 nas batidas dos seu coração quando pressionadoContinuar lendo “Cânone”

Águas

por Ana Karina Manson O mesmo caminho que havia feito há vinte anos. Era o aniversário dele e como o destino encontra maneiras inusitadas de vencer o tempo e fazer um encontro entre passado e presente, ela estava lá no lugar onde se conheceram, onde caminharam tantas vezes enamorados, apaixonados. Acreditavam que a vida inteiraContinuar lendo “Águas”

Alquimista

Elisa Dias- Eu deslizava por entre os seus dedos feito ar, inflamava teus pulmões com o sopro da vida, girava ao seu entorno e sempre te impulsionava  ao deslanchar de um novo dia, eu era a vida. Nos dias quentes eu era a brisa suave que soprava com gentileza seus cabelos, secando o suor daContinuar lendo “Alquimista”

Horas Contadas

Elisa Dias- -Ah, não fique triste amor, quando um dia de malas prontas me vir sumindo e ficando cada vez menor em direção do sol. De alguma forma a gente chega e por outros meios a gente parte, ainda que na aurora do dia correndo na rosa do tempo, mas levo em minha bagagem dias infinitos em horas contadas,Continuar lendo “Horas Contadas”

Sótão

Thata Alves – Havia um tapete no sótão, há um tempo com pó e deixado de lado, apesar de estar obsoleto sabia que ali no canto que se mantinha não havia risco de rasgar, ou sofrer qualquer dano como esses de acidentes com cacos de taças de vinho, que para além de alterar sua corContinuar lendo “Sótão”

Vida de pobre I: COLETIVOS

Carolina Tomoi – Ela já estava acostumada à vida nos coletivos. Nascera e crescera aprendendo a dividir e usar nós no lugar de eu. E naquele momento vivia seu auge dos transportes urbanos. Levava uns quarenta minutos apenas, desde que saía de casa até chegar ao trabalho. Alguns quarteirões até o ponto, caminho que fariaContinuar lendo “Vida de pobre I: COLETIVOS”

Fruta cor

Thata Alves – Fruta cor era o olhar dele, agora pense nisso numa pele cor de canela. – Hummmmm! Sentiu o aroma que tem? – Íris acessava o seu amor toda vez assim, ela odiava o jargão “o amor não tem cor”. Porque ela via todas elas, no olhar de seu amado. Púrpura era aContinuar lendo “Fruta cor”

BR-S909 contra Golias (parte 2)

Arlete Mendes- Um ruído contínuo, estarrecedor agregado a um lusco-fusco alaranjado, intenso a fez cerrar os olhos. Levou as mãos até os ouvidos. Sentiu a pedra pesar para além de sua densidade, ainda estava ali, mas o alarme a fizera recolher ideias e passos. Fechou a vidraça.  O som e a cores cessaram. Agora ouviaContinuar lendo “BR-S909 contra Golias (parte 2)”