Casa de Marimbondo

*Arlete Mendes- Ganhei a obra completa da Virgínia Woolf. Só engoli dois romances. Não tive estômago para o resto. Tenho mais livros que consigo comer, mais fome do que consigo satisfazer, mais filhos do que posso gestar, mais amigos do que posso cuidar, mais sentimento do que consigo compreender, mais corpo do que consigo carregar.Continuar lendo “Casa de Marimbondo”

No vagão

Arlete Mendes- Estou em meio à multidão. Tenho os olhos fixos nas faces. Sempre ocultadas. Ninguém exibe a própria face. Máscaras por cima de máscaras. Que mistérios guardam dentro de si? O que temem revelar? De vez em quando ouço o que dizem. Falam sobre o personagem da novela, reality show, sobre o time deContinuar lendo “No vagão”

Mãe Yemanjá canta para as filhas do mar

Arlete Mendes- Filha minha ainda indecisa, Pegue todas tuas dúvidas, pinte novo destino em tintas. Filha preta de pela clara, Pegue todas tuas mágoas Enfeite o corpo das águas. Filha preta de pele retinta, Teça com teus fios tesos A rede inédita da palavra. Filhas-espelhos de onde miro a beleza escondida do mundo, Dei aContinuar lendo “Mãe Yemanjá canta para as filhas do mar”

FAROFEIROS

Texto publicado originalmente em 21 de outubro de 2020. Arlete Mendes- Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguidaContinuar lendo “FAROFEIROS”

DOLCE VITA

Texto publicado originalmente em 05 de julho de 2020 Arlete Mendes- Ouço tanto falar de empreendedorismo, palavra muitas vezes utilizada para escamotear relações trabalhistas precarizadas, tem gente que baba tanto nesse termo como se fosse o ovo de Colombo. Besteira! Quer mais empreendedorismo que nossos ancestrais? Cavavam trilhas e caminhos no meio da mata paraContinuar lendo “DOLCE VITA”

Ser-tão

Texto publicado originalmente em 3 de junho de 2020. Arlete Mendes- Já disse, não sou paulista. Não adianta jogar mais essa carga em mim. Nunca fui, nunca serei. Os registros? Sim. Mas nem todo fato é um fato inteiro. Explico-lhe. São Paulo é um acidente em minha vida, assim como um dedo mindinho aleijado, osContinuar lendo “Ser-tão”

Então é natal?

Arlete Mendes- “So this is Chrisman’s and what have you done?” Esta não é a música que mais gosto de John, acho bem ruim a versão em Português. Mas uma canção que se inicia com uma pergunta merece ser ouvida com atenção, propõe uma reflexão, um autoexame de consciência, coisa rara diante do alto grauContinuar lendo “Então é natal?”

A hora e as estrelas

Arlete Mendes– Compadre meu, químico, disse-me certo dia que os seres humanos, assim como as estrelas, emitiam luz. O olho tem o defeito de não ver essa preciosidade. Ainda que não soubesse direito como encaixar essa minúscula verdade em minha rotina ilógica e desconexa, sabê-la me trouxe uma alegria quente. Como o sol no quintalContinuar lendo “A hora e as estrelas”

Mãe-da-rua

Arlete Mendes- O range-range a afinar os punhos da rede compete com o  firimfim da Cruviana*. O chiado das alparcatas no compasso ralentado de Dona Neném. O rezo orquestrado nos galhos da arruda cosquenta de Dona Sinhá. -Xiu, num ria, sua buliçosa, se aquiete! O canto vocalizado entre voo e pouso de quem nunca deixouContinuar lendo “Mãe-da-rua”

Vendetta

Arlete Mendes- -Não sei, já disse que não sei. – Estava ali ontem mesmo. – Vida é movimento… -Livros não se movem. -Você que pensa. Já vi muitos saírem correndo, gritar palavrões, esmurrar, dar chutes, tiros e facadas. -Gracinha. -Obrigada! -Passa o pão. Vou ficar com artigo emperrado, parei numa citação de cabeça, precisava doContinuar lendo “Vendetta”

Revolussangue

Arlete Mendes- Haverá um dia em que…  a palavra ressoada em grifos de caixa alta, o olhar arregalado diante da imagem insólita, e a mão perplexa sobre a boca entreaberta Não bastarão! Haverá um dia em que … o palavrão cerrado entre os dentes, a repugnância impelindo a náusea, o ácido carcomedor das entranhas NãoContinuar lendo “Revolussangue”

Amarelo

Arlete Mendes– Acordei macambúzia naquele dia nublado, mas ao te ver em vivo e espantoso sol, não contive o grito de alegria. Sim, tu ousaste, quando já havíamos perdido a esperança. Final de outubro, três anos sobre o duro solo, pouco sol, escavações caninas ao redor, a obra que se estende infinita, sem contar osContinuar lendo “Amarelo”

Farofeiros

Arlete Mendes- Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguida de um enterro com ladainhas: “formiga, formiguinha, leve oContinuar lendo “Farofeiros”

o ser e o nada

Arlete Mendes- Tenho impulsos para o nada. Sou atraída pelo vazio que transpassa a silhueta das árvores, pelo canto ainda não ecoado dos pássaros e pelo desejo da palavra ainda não irrompida. Há uma força de empuxo que me leva para os vãos, para o vazio que há entre os seres, matéria constituinte da órbitaContinuar lendo “o ser e o nada”

Náufragos

Arlete Mendes- Às vezes produzo diálogos que são garrafas lançadas ao mar. Lanço-me na esperança de resposta. Espera, pausa, nunca esquecimento. — Mulher, você é uma obra. Não completou a frase. De arte? De construção? Do demo? Quanto tempo já se passou? Éramos dois apartados, doloridos como quem acaba de enterrar um dos seus, golpeContinuar lendo “Náufragos”