de Ser

das tentativas de decifrar-se,da lucidezde compreender-se nas mutações.do querer caber no verbo(s).e sóexistir nos vãos das palavras.sentir é imenso. por Celane Tomaz é um doer de ossosexpandir-se um respirar ofegantedilatar-se é um perder sentidoscompreender -se entregar-se às dúvidasdespertar-se tatear a ousadiadesprender-se sentir o corpo rígidodesmanchar -se deixar a voz ecoarexercer-se um calar insanopensar-se (re)moldar (d)oContinuar lendo “de Ser”

Desfigurado

“Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz Eu não queria ver no espelho o teu rosto desfigurado. A tuaContinuar lendo “Desfigurado”

Gestar

Depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco. Alice Ruiz por Celane Tomaz Gerar é entrar em contato com a vida da forma mais crua e humana. O corpo dá forma a outro corpo – tão potente e presente, com a força e a ousadia de estar neste mundo. O corpoContinuar lendo “Gestar”

Face a faces

“fui mulher vulgar,meia-bruxa, meia-fera,[…]malandra, bicha,bem viada, vândala,talvez maquiavélica,e um dia emburrei-me mas tantas, tantas fiz” Ana Cristina César por Celane Tomaz tantos rostos mudoshabitam na confidênciade um corpo intocado.tantas faces cruas se entreolhamno espanto de um despertar em ruídos.como num relancecabem no ajuste do poemalimitados em linhas frágeis,irrevelados seres tênues. face ante as facestantos poetasContinuar lendo “Face a faces”

Corpórea

Colada à tua boca a minha desordem.O meu vasto querer. Hilda Hilst por Celane Tomaz Vestida de noiteEstrelas-ardênciasDeslizam entre minhas pernas. Despida em malíciaNua sobre o teu corpoO eclipse de almas é lunar. Gritas o diaSobre meus seios-montes de silêncio. Escorro de desejo-orvalhoNa aurora da manhã. Meu sol queima tua peleE o meu calor rompeContinuar lendo “Corpórea”

Esperas

a teia, nãomortamas sensitiva, vivente nocentroa aranha espera. Orides Fontela por Celane Tomaz Enquanto pacientemente cuidava da cicatrização da cirurgia do meu menor, pensava na escravidão da espera.Todos esperam. Não há escolha, desde aguardar água a ser fervida para o café, até a passagem do ano em que ilusoriamente tudo mudará. Não há para ondeContinuar lendo “Esperas”

Prece

À infância, à pequenez, à vida recém-sentida por Celane Tomaz À vida, devolva-me a infânciaos lábios melados de doce favoritoa face rosada do dia de solo medo vão do abandono e do escuroa inalcançável noção do que era a morteo não saber contar o tempo. dai-me os meus primeiros anoso cansaço dos pulos e dasContinuar lendo “Prece”

Perdoai

Celane Tomaz – De tanto me pensar – quando há tempo – é que a culpa me acolhe nos braços e me aperta com suas potentes mãos. Encolho-me dentro dela como se compreendesse e aceitasse que ela nasceu comigo quando menina, mãe e mulher. Os fios desordenados do cabelo, a roupa velha e qualquer, asContinuar lendo “Perdoai”

retrato de domingo

por Celane Tomaz dos dias que são retratos do ser. das sensações e percepções que nos traduzem. o domingo acordou assim, como sempre, no silêncio estendido. um despertar demorado, um cansaço invisível. outro tempo incontável ou um viver sem ele, que não nos obriga neste agora a uma razão ou um sentido. se respira, apenas.Continuar lendo “retrato de domingo”

É só uma menina, só

por Celane Tomaz dos olhos que nunca a viramescorre a lágrima– de uma também menina –que compreende o medo impronunciávelde sermulher. tantos são os pesosao carregar um úterotantas são as mortespor poder gerar vida. uma criança não é mãe!uma menina é uma menina!teu rosto preservado é reconhecidonas faces das outras mulheres. há rastro de sanguesobreContinuar lendo “É só uma menina, só”

Pai?

por Celane Tomaz Era junho e os velhos dias cinzas de outono renovavam as folhas e desbotavam o tempo. Minha mãe, sempre tão doce e amável, aguardava por tantos dias – azuis, alaranjados e cinzas – a vinda da família para a semana de visitas. Era um daqueles domingos. Doídos. Meu pai, com seu porteContinuar lendo “Pai?”

Cerejeira, cerei, cer

Licença poética no título. Ao tanto que cabe, que se é permitido no Ser: sonora e metaforicamente. por Celane Tomaz Nunca sei quando uma flor há de morrer ou nascer. O que me aduba é a espera pelos dois – dualidade vivida da ponta da pétala até as rígidas raízes entre terra e escuridão.Resisto àContinuar lendo “Cerejeira, cerei, cer”

Outra flor em náusea

por Celane Tomaz (singelo diálogo com A flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade) as lágrimas de cada manhãencharcam a secura desse tempo.a terra agoniza e sangrasob a chama e os violentos cortesdos decretos- facões que a rasgam em silêncio. a vida está sobre a mesafarta de fatos, cálices cálidos.homens jejuam a umContinuar lendo “Outra flor em náusea”

A sensível

por Celane Tomaz Dirigia, como sempre, sem poder dar muita atenção à sobrevivência desordenada da cidade que a cercava. De súbito, logo pensou e, veementemente acreditou, mesmo compenetrada, que o seu olhar a salvava. Com os olhos atentos às luzes, ao asfalto e ao fluxo monótono de veículos e de existência, compreendia que seu olharContinuar lendo “A sensível”

Uma mulher

por Celane Tomaz Começou com a noite mal dormida. Um pesadelo a fez acordar muito inquieta, com um peso sobre o peito.Observou a noite se tornar dia. Enquanto se arrumava para se lançar à rotina, conversava com Maria e explicava os espaços vazios e desarrumados da casa. Tomaram café da manhã juntas por bastante tempo.Continuar lendo “Uma mulher”