amor-só

“como qualquer mortal, que corriqueiramente se desencontra com a felicidade, encontra alívio nas suas invenções.” por Celane Tomaz é 5h33 da manhã e o sol já vence as frestas das janelas. invade.entre a consciência se desfazendo e se fazendo para começar um novo dia, entre os ossos que se estalam enquanto se estica e aindaContinuar lendo “amor-só”

amor

“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.” Clarice Lispector por Celane Tomaz “eu sou o amor”ouviu e paroudiante da frase dita pela protagonista do filme visto no cinema numa despretensiosa tarde de terça-feira. tantos olhos todos os dias podem nosContinuar lendo “amor”

a sós

por Celane Tomaz lembro-medas tantas que eu era, enquanto transito entre as outras e tateio seus mundos.mesmo assim, estou a sós. da minha noite, mesmo nos escuros do dia, adentro a luz que me devolve a mim, a luz que me gera, a luz que me lembra que estou viva.dou a mim da minha própriaContinuar lendo “a sós”

sobre a morte em vida

“se não fossem os fios de seda que costuram a outra vida de viver em linhas de escrever, morreria mais um pouco  do que já se morre todos os dias” Celane Tomaz é preciso falar da morte. e do tanto que se morre junto quando algo morre ou alguém. e o tanto de morte queContinuar lendo “sobre a morte em vida”

Devaneio da chuva de hoje de manhã

por Celane Tomaz há fluxo em mim e lá fora.há tempos não acordo com a torrente de tanta chuva. e aquele barulho ininterrupto, que de prontidão e escuta atenta, vivo e reparo dentro do oscilante movimento entre a maior e a menor intensidade, advinda da mesma força uníssona, mesmo quando não há raio ou qualquerContinuar lendo “Devaneio da chuva de hoje de manhã”

Queria um dia de sol

por Celane Tomaz queria um dia de soldaqueles que me faz esquecera nebulosidade de serque faz sentir na pelea vivacidade de existire arder o lugarque ocupo. queria um dia de solmodificando a cor da epiderme,sentindo lentamente meu corpofiltrando o calor de estar no mundo. queria um dia de sola vida acesa nas vozes,no concreto queContinuar lendo “Queria um dia de sol”

Move-te em ti

“tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.”H.H. se eu pudesse ser pássarobastar a asa para seralcançar o mundo, apesar de miúdolivre, apesar de frágildançar na terrarodopiar no céuser pássarode canto cobiçado no silêncioaos ouvidos atentos e sensíveisao canto do meu cantoritmado de (a)manhã. se eu pudesseContinuar lendo “Move-te em ti”

DESFIGURADO

Texto publicado originalmente em 31 de outubro de 2020 Celane Tomaz- Busquei a luz e o amor.Humana, atentaComo quem busca a boca nos confins da sede.Recaminhei as nossas construções, tijolosPás, a areia dos diasE tudo que encontrei te digo agora:Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.O arquiteto dessas armadilhas.” Hilda Hilst por Celane Tomaz EuContinuar lendo “DESFIGURADO”

PAI?

Texto publicado originalmente em 13 de agosto de 2020. Celane Tomaz– Era junho e os velhos dias cinzas de outono renovavam as folhas e desbotavam o tempo. Minha mãe, sempre tão doce e amável, aguardava por tantos dias – azuis, alaranjados e cinzas – a vinda da família para a semana de visitas. Era umContinuar lendo “PAI?”

BANHO DE MAR

Texto publicado originalmente em 15 de maio de 2020. Celane Tomaz- Era uma tarde de outono quando decidiu expor sua raiz. O céu já estava  assimétrico, retocado e abstrato em azul- lilás e alaranjado ardente. Assim  também seu corpo – folha seca, porém intacta, resistindo a varredura do caos. Talvez sua pele pálida precisasse deContinuar lendo “BANHO DE MAR”

Poeticamente selvagem

“apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:come às vezes na minha mão.” Clarice Lispector, em Perto do coração selvagem por Celane Tomaz tantas tardes deformadas em ventaniae há um cheiro de chuva que se insinua. nesta terra,sinto-me muda de planta carnívoraa morrer-nascer entre espinhos.sinto-me raiz expostadispostaContinuar lendo “Poeticamente selvagem”

Garoa

“Aos olhos nus, não passava de uma chuva repentina, mas aqui dentro…”  Clarice Lispector por Celane Tomaz olhe pela tua janela.chove sobre a madrugada calada. a chuva molha o início da manhã.repare nas gotas que se mantêm e as que escorrem pela vidraça, resistindo à vida breve, mantendo-se firmes em água frágil. goteja como seContinuar lendo “Garoa”

A noite espia

por Celane Tomaz ouça meus olhos.bebo desta meia luz disforme encobrindo teu rosto, dando forma tua facena minha. pausas burburinhos acomodadas nas luas de sempre. dividimos o cálice da transparência que nos esconde. há tanto vermelho envolvido, vivo por todos os lados. acaricio todos os teus emaranhados – da tua barba salgada à tua almaContinuar lendo “A noite espia”

Parir do verbo

“Cai a lua, caem as plêiades eÉ meia-noite, o tempo passa eEu só, aqui deitada, desejante.” Safo por Celane Tomaz ProcuroA palavra carregada e a precipitação dos meus ruídos.O pensamento se condensa na extensão de impalpáveis burburinhos.Uma alma de poeta inquieta, uma alma inquieta de poeta! O corpo se contorce com o pulsar dos versos-açoites.Continuar lendo “Parir do verbo”

diabo-deus, o pensamento

“Não há devassidão maior que o pensamento.Essa diabrura prolifera como erva daninhanum canteiro demarcado para margaridas.” Wislawa Szymborska por Celane Tomaz pensar para existir. dispenso. por vezes queria a vida-possível que habita o não pensar-me. existir sem a força e a dor de atribuir sentido ou razão de ser. apenas existir. mas no profundo mistérioContinuar lendo “diabo-deus, o pensamento”