Ana Karina Manson

Ana Karina Manson nasceu e cresceu na periferia da Zona Sul de São Paulo e, ainda hoje, é nesse espaço que vivencia seus papéis de “dor e delícia” do dia-a-dia: mãe, professora, atriz, escritora e mulher, que como muitas, segue equilibrando os malabares do cotidiano.

contato: akmanson@hotmail.com

Seus olhos

por Ana Karina Manson Seus olhos ainda me veem mesmo de longe, Trocamos olhares pelas telas estáticas E seus olhos me passeiam, Como antes, Pelo meu corpo enluarado Pelas minhas curvas em que deslizou suas mãos, Tantas vezes, Únicas. Seus olhos ainda me invadem Como se pudesse descobrir o meu segredo Que ainda nem conheço.Continuar lendo “Seus olhos”

AGORA

por Ana Karina Manson Exijo agora e decreto Meu abraço de volta Meu amigo aqui perto Mão com mão Ninguém solta Está determinado Qualquer beijo roubado Será livre, será cura E o coração apertado Se renderá à loucura. É lei desde agora Que nenhum amor vá embora Que nenhuma dor se demore Fica proibido partirContinuar lendo “AGORA”

Escrever

Ana Karina Manson Escrever é resgatar o que sobra, o que escapa É correr em busca daquilo, que o vento teima em levar. Resgatar o que foi Ainda sendo O que o vento levou Ainda cedo. Escrever é registrar O que transborda É enchente de alma O que recorda. É o que foi É oContinuar lendo “Escrever”

GOTAS

por Ana Karina Manson Quando vejo a amiga que se diz improdutiva gerando vida em forma de frutos, flores e hortelã Goteja esperança em mim. Quando vejo uma senhora de 98 anos recém-nascer ao se vacinar contra o mal avassalador do qual a política se armou Goteja esperança em mim. Quando vejo mulheres gerando filhosContinuar lendo “GOTAS”

NÓS

Ana Karina Manson Sentimentos estranhos Gotejam em meu rosto Estrada marcada Caminhada Do olhar à palavra Chegadas Partidas Pedaços da vida Nó não desata Aperta, aparta Tua música Minha voz Que destino Somos nós? Arrepio Calor e frio Medo e desvario Abismos Tão fundo Tão dentro Grito alto Sobrevivo Em desalentos

PARIR-SE

Texto publicado originalmente em 12 de julho de 2020 Ana Karina Manson– Dói parir No cortar cebola com ligeireza Sob a luz do abajur nossa conversa Nas palavras com tanta firmeza Na vida que passa depressa. Dói parir Todo dia o filho novo Que se renova em gestos E ao seu encontro me movo EContinuar lendo “PARIR-SE”

ÁGUAS

Texto publicado originalmente em 5 de setembro de 2020 Ana Karina Manson- O mesmo caminho que havia feito há vinte anos. Era o aniversário dele e como o destino encontra maneiras inusitadas de vencer o tempo e fazer um encontro entre passado e presente, ela estava lá no lugar onde se conheceram, onde caminharam tantasContinuar lendo “ÁGUAS”

REENCONTRO

Texto publicado originalmente em 23 de setembro de 2020 Ana Karina Manson– Só por hoje ela queria chorar sem precisar se esconder para que ninguém descobrisse suas fragilidades. Estava tão cansada desse personagem que criou e vestia há tanto tempo, que em alguns momentos até se confundia entre o que era real e o queContinuar lendo “REENCONTRO”

Meu corpo!!!!

por Ana Karina Manson Ela tinha 9 anos quando um amigo do pai disse: — Está crescendo, vou te esperar para casar com você. Era uma brincadeira, que o pai respondeu dizendo que tinha uma espingarda e outras coisas que se acostumou a dizer, ele e os outros tantos homens na sociedade que enxergavam oContinuar lendo “Meu corpo!!!!”

Eclipse

Ana Karina Manson O amor se apresentava a eles de forma distinta do que um dia ambos conheceram. Cada um com sua história já construída, já vivida fora surpreendido com o amor que surgiu sem que dessem por ele. Quando perceberam já se olhavam com entrega e cumplicidade; já se tocavam por qualquer motivo: umContinuar lendo “Eclipse”

Depois da chuva

Ana Karina Manson Hoje estou assim Esse tempo parado Sem sol, sem chuva, sem vento Sem Dia de silêncio, nem a TV  Pra fingir a pseudo presença  De todo dia Vizinhos mexendo concreto Será mais um muro? Já nem somos vizinhos Humanos estranhos Alguma coisa se foi com a tempestade Que nem vi Agora sóContinuar lendo “Depois da chuva”

Onde as louças moram?

Ana Karina Manson Quando ela era criança odiava guardar a louça. Cresceu e continuou odiando. Mas guarda quase diariamente. A louça não toma banho sozinha, tão pouco sabe andar até máquina de lavar. Quando menina, pensava que guardar a louça era uma espécie de serviço subalterno. O principal era lavar. Só os maiores podiam mexerContinuar lendo “Onde as louças moram?”

Ela

por Ana Karina Manson Quando ela abriu o portão uma avalanche de passado, de histórias e saudades surgiu. Uma senhorinha com seus 98 anos trazia consigo tanto de si e de tantos, que o coração palpitou e os olhos marejaram. Eu e ele voltamos ao “tempo da delicadeza”. Éramos tão puros e felizes quando ouvíamosContinuar lendo “Ela”

Pequeno-grande amor

Ana Karina Manson Estavam na cama a menina de cinco anos e a mãe, quando a pequena sem a olhar disse “Mãe, o Tim Maia tem razão”. A mãe, como deve parecer óbvio, estranhou a afirmação da filha que falara como se conhecesse pessoalmente o Tim Maia, como se fosse alguém com quem tivesse conversadoContinuar lendo “Pequeno-grande amor”

Desobediências

Ana Karina Manson Ela teve dois filhos de um casamento que durou pouco. Ficou viúva. Viúva. Mulher viúva, jovem, naquele tempo, não podia. As pessoas podiam falar. E também como sustentar as duas crianças sozinha? As poucas oportunidades que apareciam eram para mulheres solteiras e sem filhos. Ela era um ser estranho na sociedade hipócrita,Continuar lendo “Desobediências”

Feitiço da lua

Ana Karina Manson — Puruba que é bom! – gritava aquela gente que ousava ser feliz. Era mesmo muita ousadia viver sem quase nada do que o tal mundo moderno inseriu em nossas vidas, que sem perceber achamos natural ter celular, ter micro-ondas, ter cremes, ter maquiagens, ter computadores e outros como se fosse essencial,Continuar lendo “Feitiço da lua”

Histórias esquecidas

Ana Karina Manson– Na juventude ela lia histórias das quais nem se lembra. Às vezes nem lembra que lia. O gosto pela leitura é uma lembrança do tempo em que pensava que viveria de amor. Depois descobriu que amor não enche panela, não veste criança, não garante a água na torneira e nem a claridadeContinuar lendo “Histórias esquecidas”

Reencontro

por Ana Karina Manson Só por hoje ela queria chorar sem precisar se esconder para que ninguém descobrisse suas fragilidades. Estava tão cansada desse personagem que criou e vestia há tanto tempo, que em alguns momentos até se confundia entre o que era real e o que inventava. Aprendera a ser e agir como oContinuar lendo “Reencontro”

Presente do tempo

por Ana Karina Manson Faz-me companhia aquele que nem conheço, aquele que está longe e só ouço a voz. Nesses dias de relações restritas me ajuda a respirar aquele que está distante e de alguma forma toca minha mão. Sinto seus dedos se distanciarem. A cada passo só ouço o som dos meus sapatos, masContinuar lendo “Presente do tempo”

Águas

por Ana Karina Manson O mesmo caminho que havia feito há vinte anos. Era o aniversário dele e como o destino encontra maneiras inusitadas de vencer o tempo e fazer um encontro entre passado e presente, ela estava lá no lugar onde se conheceram, onde caminharam tantas vezes enamorados, apaixonados. Acreditavam que a vida inteiraContinuar lendo “Águas”

A menina que lê

por Ana Karina Manson “Todo dia ele faz tudo sempre igual”: sobe a Estrada do Campo Limpo com seu livro nas mãos sem tirar os olhos das palavras que balançam no ritmo do seu caminhar. “Todo dia ela faz tudo sempre igual”: desce a Estrada do Campo Limpo ansiosa em vê-lo mais ainda, em verContinuar lendo “A menina que lê”

Elas-Nós

Ana Karina Manson Não me canso de admirar a imensidão dessas mulheres. Elas gestam, criam, recriam, inventam e reinventam e ainda vivem como mortais. Elas contra Tebas! Elas contra todos que deixam rastros de dor, de ódio, de racismo, de machismo, de abandono, de injustiça. Elas lutam com gritos que ecoam no grito da outraContinuar lendo “Elas-Nós”

Menino-pai

Ana Karina Manson A ideia de perder meu pai é algo que não consigo explicar, menos ainda entender. Como entenderia viver neste mundo sem a pessoa que me protege, me defende? É contraditório: foi ele quem me ensinou o que é certo, mas me defende mesmo quando estou errada. Costumo pensar em tudo que eleContinuar lendo “Menino-pai”

Amor-alimento

por Ana Karina Manson Tem gente que escolhe cenários com livros, plantas, cortinas improvisadas e outros para as lives de cada dia. Ela estava simplesmente ali debaixo das panelas. A imagem das panelas penduradas na cozinha e ela sentada embaixo fazia pensar no poder desse lugar-panela. E assim suspensas, no alto, sobre a cabeça pensanteContinuar lendo “Amor-alimento”

Além das janelas

Ana Karina Manson- Os alarmes desativados. O celular não despertaria – nem amanhã, nem nunca mais. A vida mudara e, como numa ficção cinematográfica, ninguém podia sair de casa. Ninguém sabia ao certo o que acontecia, mas aquele que saía, não voltava. Não aconteceu de um dia para o outro. Primeiros as pessoas receberam avisosContinuar lendo “Além das janelas”

Parir-se

por Ana Karina Manson Dói parir No cortar cebola com ligeireza Sob a luz do abajur nossa conversa Nas palavras com tanta firmeza Na vida que passa depressa. Dói parir Todo dia o filho novo Que se renova em gestos E ao seu encontro me movo E em seus olhos me gesto. Dói parir MinhaContinuar lendo “Parir-se”

Abraços

por Ana Karina Manson “Não aguento mais ficar aqui como uma margarida num jardim de móveis”, disse a menina cansada de ficar em casa. Ela sabe das razões desse isolamento, é inteligente, sabe que precisa se proteger e sabe mais ainda: precisa proteger aos outros, principalmente os mais velhos; principalmente sua avó querida. Há entreContinuar lendo “Abraços”

Acreditar

Ana Karina Manson Amanhece. Amanheço e sinto um ar suave do dia que chega. Meu corpo e meu espírito ainda anoitecidos se recusam a entrar nesse dia, que parece leve nesse início de inverno disfarçado de outono, quiçá de primavera. Até os pássaros cantam me convidando a ingressar nesse novo dia. Não sei se osContinuar lendo “Acreditar”

QUEBRA-CABEÇAS

Ana Karina Manson – Ela era menina ousada. Cheia de planos desde pequena. Há quem diga que a culpa fosse da mãe: Dona Esperança era cheia de botar sonho na cabeça da menina. Dizia que a filha ia ser miss quando crescesse e lá estava a menina se olhando no espelho toda, toda. Outras vezesContinuar lendo “QUEBRA-CABEÇAS”

Faça a coisa certa

Ana Karina Manson – À professora Socorro e ao professor Gilberto Há alguns anos, acredito que uns trinta, numa brincadeira de amigo secreto um professor me presenteou com bombons e um cartão. Não me lembro a marca ou sabor dos bombons, mas o cartão ainda o tenho e mesmo que o perdesse como muitas coisasContinuar lendo “Faça a coisa certa”

Vó era analfabeta

Ana Karina Manson – Dias desses aqui em casa cismaram de querer fazer pão. Já quase imediatamente vai alguém buscar na “internet” uma receita e mais outra e mais outra. Logo um lembrou-se do livrinho de receita que a mãe tinha. Com todo capricho, só faltava desenhar os bolos e tortas. As páginas até amareladasContinuar lendo “Vó era analfabeta”

Domingo

Ana Karina Manson – Há pessoas que precisam do sol para se sentirem vivas, outras do mar, outras da estrada. Eu preciso da casa dos meus pais. É lá que recarrego minhas energias; lá me conecto pelo olhar, pela voz, pelo abraço deles com algo que transcende minha existência.Portanto, após um mês longe deles, devidoContinuar lendo “Domingo”

Cabelinho de fogo

Ana Karina Manson – — Estava falando com aqueles bichinhos que ficam no nosso quintal. Mas eu não estava conseguindo escutar… Disse a menina e seu olhar completava a frase que a mãe pronunciou sorrindo: — Eles falam muito baixinho, não é? — Sim, são as formigas – respondeu também sorrindo a pequena de cincoContinuar lendo “Cabelinho de fogo”

E daí?

Ana Karina Manson – Meu avô morreu aos setenta e sete anos em seu trabalho como jardineiro. Não houve tempo para o socorro e, se houvesse, seriam poucos os recursos médicos para sobreviver ao enfarto. Curioso que sua morte ocorrera neste dia em que cuidava de um jardim e hoje tenho em minha casa aContinuar lendo “E daí?”

A vida acontece de perto

Ana Karina Manson – Se eu te perguntasse qual é a sua melhor lembrança da escola, o que me diria? Suponho que alguns recordariam aquele amigo engraçado que sempre fazia toda a turma rir; outros lembrariam do coração batendo forte ao reconhecer o primeiro amor; há quem também se lembrasse daquela amiga que te ajudouContinuar lendo “A vida acontece de perto”

Trombas d’águas

Ana Karina Manson – Há alguns anos visitei Paraty e, não sendo a primeira vez, já conhecia a beleza da cidade, o clima agradável, a parceria entre história e cultura que nos invade pelos poros sem que percebamos. Todavia, nessa visita em questão o que me invadiu foi algo que tenho dificuldade em explicar. PoisContinuar lendo “Trombas d’águas”

Pelas despedidas

Ana Karina Manson – Quando ele falou com olhos marejados sobre as tantas mortes em um país distante, cujo funeral para a despedida dos familiares é impedido, ela navegou nesse mar que nele brotava e viu seu medo de ser um desses. E também ela temeu nunca mais abraçá-lo e menos ainda cumprir o ritualContinuar lendo “Pelas despedidas”

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