E AÍ, COMPANHEIRO?

Mulher grávida e companheiro por Hugo Castilho

Eu sei lá quantas voltas no coração, no juízo e na libido, nossos processos de formação, de sentir, de buscas internas nos dão até nos jogar no colo de alguém.

O que determina a escolha? Estou aqui olhando você dormir igual ao nosso filho, ou ele igualzinho a você, e me questionando: o que me fez querer você aqui, aceitar-lhe milhões de vezes em nossas jornadas de fuga e retorno um ao outro?

Eu sempre me desgasto em muitas e muitas questões a respeito de tudo, ao menos é o que você sempre diz enquanto caminha devagar e vive cada minutinho de uma vez, sem as mesmas ansiedades, expectativas e planos que eu. Como nós somos diferentes!

Às vezes penso que é só pelo fato de ser eu mulher, sempre muito cobrada pelos meus tutores durante a vida e mesmo pela própria vida, que não foi fácil nunca.

Lembro-me de uma frase que ecoa em meu crânio até hoje, de tão repetida, pela minha mãe, que foi: “estude muito, fia, para nunca depender de homem nenhum!”.

Com o tempo fui vendo que, para além do conhecimento adquirido e da independência financeira, pois era aí aonde minha mãe queria que eu chegasse, nós mulheres precisamos aprender a construir um mundo emocional individual mais seguro. Isso, entretanto, requer maturidade! E essa, não obstante, necessita tempo e vivência do amor e das parcerias que a estrada nos proporciona. Meu desejo profundo é que as mulheres todas sobrevivam à estrada e seus percalços.

Sua silhueta me apresenta a própria aceitação da vida que, com certeza, me contagiou em algum momento em que nossos corpos estiveram juntos. Esse distensionar de ossos e músculos, sem pressa, mas muito rápido, nos trouxe até aqui: eu escolhi você para ser o pai dos meus filhos[1].

E não foi na maternidade da Santa Casa de Maceió, quando o Quim nasceu e lhe colocaram nos braços um bebezinho que paralisou seu corpo inteiro, não foi quando você deprimiu em Maceió por não ter emprego para cuidar do seu filho, tão pouco foi no dia que eu deixei você partir para se curar e fiquei sozinha com aquela criança no colo. Quando foi?

            Que processo difícil de explicar, nessa jornada que me parece tão curta, perto do que viveram outros casais. Se formos nos basear em “tempo de relógio”, como diria minha avó, não saberemos nunca quando foi, exatamente, que nos escolhemos para acompanhar a vida dessas crianças, mesmo que um dia nos deixemos ir sem volta um para o outro.

            Para mim sua estadia em minha vida tem sido uma montanha-russa cotidiana, de dores passando em slow motion diante dos meus olhos e de curas que não se sabe de onde vêm, mas chegam. Têm chegado sempre, desde o dia que escolhi você, mas quando foi mesmo? Quantos quandos foram?

            Eu lembro

  • daquela vez que você sorriu da maneira mais positiva para mim, depois que eu disse, “estou grávida, você vai querer ter esse filho comigo? Se não, tudo bem, eu tenho sozinha”;
  • de outro dia que eu tive febre e você cuidou de mim como se fosse um pai;
  • e, das vezes que eu enjoei muito no início da gestação do Quim e você fez almoço para mim por mais dois meses seguidos;
  • ou ainda, quando você topou dirigir sempre que saímos juntos, porque eu só dirijo por obrigação;
  • eu também vi que, espontaneamente, você esteve em todas as consultas durante toda as gestações do Quim e do Vicente. Interessou-se de verdade pela vida da criança que estava ali e pelo meu bem-estar;
  • ou de quando vi você se esforçar — não que eu tenha dado outra escolha – para saber fazer exatamente tudo que uma mãe faz.

Eu fui anotando no meu caderninho de canceriana pesquisadora os dados que me fizeram acreditar que valeria a pena chegar até aqui com você ao meu lado, companheiro.

Porque acredito que, sim, estudar um homem para saber se ele pode ser pai de nossos filhos, não é loucura. Ao contrário, é o nível de sanidade para onde me levou a minha estrada, a maturidade que ela me proporcionou. Ao entendimento de que, por mais que você, amado pai dos meus filhos, seja tão presente e colaborativo em seu papel social e emocional dos nossos filhos, nem de longe, carrega o peso que uma mãe carrega.

E não vejo isso com soberba, orgulho e prazer. Quero muito, muito que a cada dia, eu e todas as outras mulheres mães, possamos dividir peso, amor, angústias, traumas, afeto e escolhas sobre as crianças com os homens. Que eles também sejam responsáveis por estudar se querem ou não seus filhos — antes de concebê-los, de preferência — pois cuidar de uma criança é tarefa para muitos, mas, ao fim e ao cabo, é responsabilidade de mães e pais.

E depois de tudo, pergunto sempre, aonde ainda poderemos chegar assim, eu apressando e você respirando fundo para entender minha pressa, me distraindo com os pássaros do caminho; eu explicando coisas sobre os processos cognitivos dos bebês e você revivendo sua infância com eles; eu sendo “mãessora” como você me classifica, e você sendo o ensinador de animes e games; eu obrigando você a ler com eles, e você lendo por obrigação, como quem dá de banhar e de comer; vocês três me ouvindo quando eu estou cansada e brava, e você ensinando aos meninos que a melhor maneira de resolver isso é me fazendo massagem e me dando algum doce; eu tentando arrumar a casa e vocês achando que é mais importante brincar, ou comer, ou ver TV; eu-você- eles… E aí, companheiro? Vamos juntos? Eu girando no meio e você sem soltar minha mão no seu passinho de dois para lá, dois para cá. Eu quero muito dançar forró contigo por muito tempo ainda! Porque amor construído — como você classifica o nosso — se constrói com quem tem a coragem e a vontade que eu encontro em você!


[1] Quando escrevi este texto já estava grávida do Vicente, nosso segundo filho.

3 comentários em “E AÍ, COMPANHEIRO?

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