amor-só

cérebro adormecido (1975), de clarice lispector

“como qualquer mortal, que corriqueiramente se desencontra com a felicidade, encontra alívio nas suas invenções.”

por Celane Tomaz

é 5h33 da manhã e o sol já vence as frestas das janelas. invade.
entre a consciência se desfazendo e se fazendo para começar um novo dia, entre os ossos que se estalam enquanto se estica e ainda está perdida pela casa, em Lúcia inteira descansa o amor.
o amor que dorme e acorda acomodado no seu peito, o amor que ainda molha, apesar da secura dos dias, que é presente, apesar das distâncias seguras e que existe resistindo ao sopro das distrações.

o amor que É, apesar do real. o amor que se contrapõe à realidade, mesmo desejando sê-lo. sendo amor pelas beiradas.

Lúcia apalpa seu amor no lado de dentro, enquanto o sabe transbordando num sorriso tímido no rosto, de uma vida inteira construída numa memória inventada.

tantas vidas vive Lúcia do lado de dentro. e muitas de si, que também É, mesmo que ninguém a perceba, conheça. ama outras vidas, outros mundos. todas onde possa repousar, todos os lugares para onde possa fugir, sem que a procurem ou sintam a sua ausência.

caminha sorrindo com os olhos para suas outras faces. a centrada, a livre, a louca, a perversa, a meiga, a má.
Lúcia é
“mulher de (muitas) verdade(s) “.

nela, todo o amor que cabe e que transcende calado. vive
suspenso, enquanto passa seu café na pressa, enquanto rega suas plantas na varanda e estende as roupas no varal, cor a cor, primeiro as claras, depois as escuras, num padrão de ordem, bem longe da desordem do seu coração.
o amor que vive nos lábios que ensaiam o beijo enquanto experimenta o almoço ou passa um batom. o amor que tem sua chance de vida para ser o que quer ser num lampejo de pensamento antes de dormir.
como qualquer mortal, que corriqueiramente se desencontra com a felicidade, encontra alívio nas suas invenções.

é 6h27 de uma manhã nascida antes que acordasse naquele silêncio morno da madrugada. o sol já escancarado em seu rosto, rompendo as cortinas e as frestas de suas janelas.
o sol e o amor.
o amor que é sol – mas um amor-só –
invade.

7 comentários em “amor-só

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