Vermelhos

Cartaz de propaganda da União Soviética de 1926. Strakhov-Braslavsky A.I. Nos dizeres: “Mulher libertada – Vamos construir o socialismo!”

Carolina Tomoi –

A mulher transforma-se gradativamente. E de objeto da tragédia masculina converte-se em sujeito de sua própria tragédia.

Alexandra Kolontai, A Nova Mulher e a Moral Sexual

Um telefonema a acordou. Estivera bem? Chegara bem em casa? Explicou que sim, excetuando as típicas dores nos pés após as caminhadas do dia anterior. Mas como poderia ele saber que ela esteve lá se foi um dos poucos que não encontrou. Graças ao alerta do amigo correu à banca de jornal e lá estava ela, na primeira página do Diário Popular…

Era primeiro de maio. Levantou-se animada, um pouco mais que de costume, o dia estava lindo, como um presente a todos trabalhadores e trabalhadoras que em poucas horas estariam nas ruas, com suas bandeiras vermelhas e camisetas de luta.

Vestiu-se e, empunhando sua arma flamulante tomou o ônibus em direção à Paulista, um dos mais perfeitos palcos das grandes e memoráveis passeatas marchando por direitos, por justiça, por menos desigualdades, a velha luta de classes do estado de direito.

Já nas grandes avenidas da cidade, o vento pelas janelas abertas batia forte no rosto, balançando livremente os fios de seus longos cabelos. Grandes expectativas para um grande dia, porque sabia que carregava consigo fileiras e fileiras de trabalhadoras e trabalhadores de outras épocas e lugares, que como ela, deram duro, levantaram cedo, percorrendo longos caminhos ao trabalho. Tarefas extenuantes e repetitivas, depois de sua mais-valia sugada, o distante caminho de volta ao lar, onde poderia enfim, realizar a diária manutenção de sua força de trabalho.

Entretanto, no primeiro de maio, no dia dos trabalhadores, levantaram cedo e foram, ombro a ombro, caminhar com seus verdadeiros irmãos, por seus direitos, por suas conquistas com a alegria de quem tem a nobre tarefa de libertar a humanidade das amarras do capital.

Caminhando junto aos seus, sentiu o coração pulsando forte, uma emoção, comoção, uma alegria incontrolável a impedia de parar de sorrir. Na descida pela Brigadeiro, toda em festa, já não estava mais só na multidão, amigos sempre se encontram, abraços apertados, beijos estalados, cumprimentos, notícias, saudades mortas. Companheiras e companheiros de várias e da mesma caminhada.

O asfalto duro e quente sob o tênis rubro, o céu salpicado de flutuantes ondas vermelhas coloriam o concreto da cidade, dos viadutos, dos envelhecidos e saborosos prédios do Bixiga.

Num piscar de olhos a multidão já tomava conta da Praça da Sé, seus jardins, suas muretas, suas calçadas, escadarias e ruas, tudo pertencia às trabalhadoras e trabalhadores do mundo, se os havia construído, era para seu livre caminhar.

Porém a luta de classes é um tênue fio mais ou menos tensionado. Num descuido de seu olhar, testemunha a truculência do estado agir sobre um de seus irmãos agricultores. Camisa vermelha no chão, uniforme cinza na afronta, cacetes em punho. Posicionar-se entre o guardião das forças dominantes e o dominado era a única coisa a ser feita. Frente às duas camisas vermelhas o covarde recuou, corações batendo forte, havia vencido, a união venceu, a fraternidade entre os trabalhadores do campo e da cidade vencera, entre produtivos e improdutivos: UNI-VOS!

Tanta euforia, tantos pensamentos a impediram de perceber que aquele momento havia sido eternizado num clique atento de quem procura manchetes, meio ao tumulto harmonioso e companheiro de um 1º de maio.

Adrenalina corria por suas veias. E a alegria foi ficando maior ainda, seu coração pulsava forte também pela novidade do amor. O dia é ainda mais especial. O encontro. Um beijo quente em meio a multidão, emoldurado pelas imperiais palmeiras e góticas torres da Catedral. A recém-paixão coroava aquele entardecer pleno de outono, enchendo de esperanças seu coração tupiniquim.

… e Agora era capa de jornal.

Ouça nossa voz: Vermelhos.

* texto publicado originalmente em 07/05/20, revisto e ampliado.

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