Amor, substantivo abstrato

Carolina Tomoi-

me desafio,

me desafiei a escrever,

um ensaio sobre o amor que sinto, ei-lo:

Difícil é escrever sobre o amor. Não esse amor que se dedica a humanidade, amor geral e irracional por aquela massa insone e ingrata que retribui com ofensas e agressões tal um espelho invertido, em frente ao qual se manda beijos e em troca, cacetadas.

Como chamar esse amor, como nomeá-lo, como dizer-lhe sem que algo sobre ele ainda não tenha sido dito?

Dizer que o amor é infinito enquanto dura, que é fogo a arder, que amor se leva no coração, que se morre de amor quando a alguém se quer, que é possível até sentir tu’alma e que se tem a sensação de ser apenas um coração…

Tudo isso já foi dito, e bem dito, bem melhor do que eu diria, melhor do que eu. Acredito até que o amor que deveras sinto não foi sentido e descrito por mim, foi dito por outros, sentido por mim e agora, como dizê-lo assim tão meu? assim no eu? no dentro de si? como nominar o indizível, concretizar o abstrato, universalizar o meu particular?

O mais difícil dessa tarefa é delinear algo que foi tão subjetivamente descrito e que se tornou comum a todo ser humanizado:

Amor é:

dedicação, fidelidade, confiança, paz, doação, é um ideal.

Realizar o amor?

Uma data, uma aliança, um juramento, um documento?

Comercializar o amor?

Um coração estilizado e vermelho, um buquê de flores, uma jóia, um último modelo com laço de fita?

Mas e o meu amor? aquele sentimento descoberto dentro e cultivado fora. Aquele cultivado, desenvolvido, cultuado, questionado, esfolado, amassado e embolado, jogado e pego de volta? 

Amor de mulher, leal ao amor. O amor que dura mais que a metade de minha existência. Amor que se aprende, com quem se aprende. Meu amor não tem vergonha de errar meus erros. Ele é também um erro meu. 

O meu amor não é abstrato, ele é concreto, ereto e errado, é alvo e flecha, ele anda pela rua e também ama o mundo, também recebe na cara os tapas da vida. É de carne e osso. Tem braços macios e corpo quente. Tem cabelos e barbas roçagantes. Tem voz, tem saliva, dentes e língua. Meu amor se solidifica ao olhar, tocar, cheirar, degustar, deglutir, escutar. Ele tem forma, corpo, delineável. Meu amor é concreto.

4 comentários em “Amor, substantivo abstrato

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