amor

imagem retirada do Pinterest

“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.”

Clarice Lispector

por Celane Tomaz

“eu sou o amor”
ouviu e parou
diante da frase dita pela protagonista do filme visto no cinema numa despretensiosa tarde de terça-feira. tantos olhos todos os dias podem nos arrebatar e nos falar muito sobre “o que é”. é
sempre um risco encantador e constante.
olhava fixamente nos olhos daquela mulher dominando a tela. olhava
tão fixamente que perdia as legendas e o fio
da história. mas ela era só uma personagem. não. ela era real. em algum lugar, talvez ali, existiam.
o que era ser o amor? o que era o amor tão inteiro e tão orgânico como vivo? amor e corpo uma coisa só.
‘só’ de única e também solitária, sempre assim.
então pensou que, sendo o próprio amor, desejava
alcançar as coisas que não sabia, como quem tateia e procura algo precioso dentro do escuro, não sabendo o que é, apenas sabendo
que ali está. e procura.
uma procura de fome, muitas vezes, promíscua. promíscua e crua. e de tão ‘promíscrua’ não podia falar.
se assim fosse, talvez,
o amor sendo prevalência pelo mundo – mas não o domínio – e corpo, também teria
traços de imperfeição, mas ainda sublime e inexplicável. tão sublime e inexplicável como um corpo se debruçando sobre outro, como um amor sobre outro amor – um eclipse e depois explosão.
imperfeito, sublime e inexplicável. e de ser os três e ser mais o que não saberia, ainda assim, o quereria.
saiu da sala fria e se expôs à quentura do dia. seu corpo, que é o amor, também sentiu o choque de prazeres quando está em um e adentra o outro. o amor também é essa contradição. a sede de querer beber de fonte inesgotável, de tudo, e não poder, podando o próprio amor de ser.
observou as pessoas que caminhavam em ritmos diversos e fluxos contrários. quantos amores dentro delas e quais desses amores eram amor de volta? quantos
amores já eram perdidos, quantos já borrados? será
que sabiam que também eram o amor? que o amor não é essa abstração à parte que nomeia sentimento, mas um organismo que se olha no espelho, toma seu café e transita no mundo?
despertou sobre
os pássaros resistindo à poeira e à secura da cidade. uns
para se achegarem aos ninhos onde outros pássaros estariam à sua espera.
outros
apenas sendo dentro de certa liberdade, alheios à nossa existência tão condicionada. esses amores sufocados em regras.
olhou as árvores crescendo e existindo em espaços improváveis. suas raízes rompendo o concreto, resistindo. só viu
amores lutando pra ser – pássaros, árvores, pessoas.
“eu sou o amor, alguma espécie de amor”, ressoava em sua mente. e mesmo sendo-o, constatou que ainda precisava des
cobri-lo.
“eu sou o amor, eu sou.”

pensou e seguiu pela terceira rua à direita.

ouça “amor”, por Celane Tomaz

3 comentários em “amor

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