Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro

Celina Simões –

Veio estar comigo a Penha. Disse ela com lentidão, que a última pedra de sabão caseiro feito pela nossa mãe ia ser colocada para uso e mais disse ela: isso dá uma crônica.

Penha é minha irmã mais velha. Nasceu em 1946 e ser irmã mais velha no seio de uma prole mineira de seis irmãs e três irmãos não foi nada fácil e não é nada fácil. Grande parte das responsabilidades de criar as filhas e filhos de minha mãe e de meu pai – não as filhas e filhos de minha irmã – caíram sobre ela. Trabalho hercúleo. Penha deixa de estudar muito cedo, sendo na época, a melhor aluna da Escola do Jockey Club de São Paulo, ganhando várias medalhas redondas de ouro. O Jockey era o lugar onde meu pai trabalhou de faxineiro durante uns trinta anos, especificamente no Paddock, onde pobre só entra para trabalhar…  vendo apostarem fortunas em cavalos. Indo e voltando com sua marmita de alumínio amassada.

Penha vai trabalhar ainda menina para ajudar no sustento de casa. Quando já na adolescência começa a ler muitos livros, o que vai marcar nossa relação, pois sempre perguntava quais os que ela mais tinha gostado e ela elencava vários. Entre eles: Pássaros Feridos; Enterrem Meu Coração na Curva do Rio; A Boa Terra, entre dezenas de outros.

Penha vai procurando se fortalecer nos trabalhos que desempenhou sempre com o encantamento de estar dando o seu melhor. Faz várias amigas e amigos por onde passa e continua sendo muito, mas muito querida por todas e todos que a conhecem.

Penha, hoje, está mais vagarosa, mas sem perder sua determinação, continua com sua alegria mineira e gostando de uma boa prosa, sempre foi solidária. Penha é esta Grande Mulher, para muitos, anônima, mas que fez e faz a diferença onde entra com sua meiga e sutil presença.

É verdade Penha, a última pedra de sabão caseiro feito pela nossa mãe dá uma crônica.

Peguemos o tacho Penha e coloquemos óleo ou gordura usados, acrescentemos soda e água. Vamos bater e bater muito até dar consistência, deixe descansar e no dia seguinte, entre conversas, cafés e bolinhos de chuva, cortemos muitas pedras de sabão caseiro. Tem muito? Vamos partilhar.

Penha, vamos fazer uma “decoada”. Com a decoada, vamos fazer sabão de cinzas. Arrumemos uma lata de tinta grande e vazia. Vamos agora enchê-la de cinzas, pode ser de fogão a lenha ou fogueira. Mas onde encontrar isso na cidade? – por isso a outra opção. Vamos socar, mas socar pra valer as cinzas dentro da lata e quando estiver compacto, vamos derramar água quente bem lentamente. Logo abaixo da lata, por um furo, deixe sair a decoada (líquido espesso e escuro), que misturado aos rebotalhos de gordura de porco derretido em um grande tacho, vamos lentamente misturando e cozinhando todos os ingredientes, agora juntos. Deixe descansar e no dia seguinte, está pronto o sabão de cinzas.

Fiquei pensando nesses processos e quantas vezes minha mãe fez esses sabões, nunca sozinha, pois a tarefa é longa e privilegiar uma boa conversa com os familiares, vizinhos e amigos fazia a diferença, logo, o fazer sabão era só uma desculpa para a arte dos encontros e das conversas.

Penha, na verdade, estava querendo me dizer que a nossa mãe já não tem mais forças para continuar fazendo os sabões, logo, esta última pedra, virou símbolo e símbolo guarda mistérios e desse mistério nós, mulheres e homens de boa vontade, vamos continuar a fazer “pedras de sabões” e, caso você queira uma, sinta-se convidada e convidado para estar na nossa roda de conversas partilhando o café, os bolinhos de chuva e não vamos esquecer das pedras de sabão.

A você Penha, minha irmã mãe, tenha a minha gratidão, que escrita não consegue mensurar os meus sentimentos.


Ouça Sabão de Pedra e a Arte do Encontro na voz da autora:

4 comentários em “Sabão de pedra caseiro e a Arte do Encontro

  1. Os contos de história familiares são um importante registro da relação entre as gerações que compõe esse núcleo, sua história de trabalho, de lazer, de vizinhança, de afetividade e solidariedade. Esse, assim como outros que já li da escritora Celina expressam com fidedignidade ímpar o retrato de muitas famílias, cada uma com suas particularidades, mas a sua tem o toque especial dos costumes mineiros, do amor fraterno, da gratidão e da solidariedade. É muito emocionante e gostoso a leitura de seus contos.

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