a sós

polaróide de andrei tarkoviski

por Celane Tomaz

lembro-me
das tantas que eu era, enquanto transito entre as outras e tateio seus mundos.
mesmo assim, estou a sós.

polaróide de andrei tarkoviski

da minha noite, mesmo nos escuros do dia, adentro a luz que me devolve a mim, a luz que me gera, a luz que me lembra que estou viva.
dou a mim da minha própria luz. dou à luz a mim de mim. e “mim” ja é, e “mim” é outra também, enquanto ainda só me alcanço “coisa”.
estou a sós.
adentro o eco da voz, mesmo entre as muitas vozes que falam e calam os dias.
desejo ouvir os sons do mundo, desse mundo. assim, limpos e crus, sem as pressas, sem a razão de ser e existirem, sem a sincronia e as intenções. o murmúrio das pombas, a água que lava as beiradas, os pedregulhos pisoteados e tirados de seu lugar, o galope do cavalo, o canto do pássaro aprisionado, o ruído do ar. as primícias, os princí
pios – o estado primeiro dos seres e das coisas.
a sós o desejo
de ouvir, dentro do silêncio, o som do inalcançável, o som que se sobrepõe aos sons que ouço quando estou de ouvidos soltos e atentos.
a sós desejo
ouvir e adentrar os ruídos dessa ruína. atentar-se às novas linhas que se abrem em rachaduras, rompendo ponta a ponta as paredes. atentar-se às linhas que se espandem mudas no rasgo do tempo, enquanto há sol e chuva, enquanto se transforma na calma corrosiva da erosão.
atentar-se até aos estrondos das sobras que desabam.

polaróide de andrei tarkoviski


se nasce pelo silêncio – um deus que me esculpe do meu pó, a quem faço preces impronunciáveis. o deus que acolhe os meus sacrifícios, o deus que me faz ser meu próprio perdão.
dentro do silêncio exerço o livre fascínio, arbítrio dentro das minhas verdades.

dentro do silêncio também nasce e cresce o tempo. o tempo outro – indecifrável e incontável – longe das clausuras e das mãos.
dentro do silêncio se sucumbe a realidade mortal e finita, ao mesmo tempo em que se nasce dela para se perpertuar infindável, suspensa e não-dita.
estou a sós
e dentro do silêncio construí um altar.

filme “o espelho”, de andrei tarkoviski

dentro da noite, do tempo e do silêncio se fundem todas as naturezas.
dentro da minha noite, a lua é outra. nós duas – nuas – nos reconhecemos. estou ainda a descobri-la porque eu-meu-corpo ou meu-corpo-coisa é outro e ainda não sei a nova língua dos seus sinais.

eu me gero. tenho em mim outro útero. fértil e impalpável.
estou só e, mesmo imensa, caibo dentro de mim – abundante. dentro de um excesso, ora irreconhecível e renegado, ora ambicionado numa fome de devorar a carne até os ossos e mordo o mistério que me sublima, com a força nutrida da fragilidade.
dissolve-se entre os dedos a ilusão de se ver limite, mas ser vão imenso.

ora “se”, ora “me”, como se lê nessa tentativa em palavras. pronomes do que não há nome, mas que há num “aqui”, que também é
oculto e suspenso, vestido de nada. o eu, o mim, a coisa – um animal vistoso.

“(a)dentro”, por celane tomaz

encarar-se nus espelhos – o ser, o animal e a coisa.
os espelhos que gritam a luz e o reflexo em ângulos que se revelam de si pra si, de “mim pra mim”, de “mim pra coisa”, num caleidoscópio de movimentos assíncronos, na imagem refletida em retratos assimétricos.
os espelhos dentro do silêncio, dentro do tempo, dentro da natureza de tudo que se funde, que é dentro da noite, que é dentro.
dentro de dentro que há dentro de tudo. e no fim (para alguns começos) é só “mim, animal e coisa”

a sós.

8 comentários em “a sós

  1. Texto/poema/poesia lindo, intensa e profunda! Todo ele, do início ao fim, está cheio de sabedoria e humildade, humanidade e espiritualidade: “Tu és tudo isso, nós somos toda essa realidade, somos parte e parcela do todo, somos o todo.” 👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏

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  2. Tão incrível que eu não consigo dizer a parte que mais gostei, leria por horas interiorizando cada trecho dentro de mim. E as fotos obras de artes, todas! Você é uma grande escritora, Celane ❤️ gosto que o tema não se perde mesmo em um texto longo, demais!
    “Dentro do silêncio exerço o livre fascínio”

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sempre tão, tão generosa. Sua leitura me impulsiona. Sempre um presente. Que feliz é este caminho da escrita, apesar dos pedregulhos, que proporcionou este nosso encontro ❤

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