Poema póstuma pandemia

Rua Nunes Feijó, Santa Filomena; Valentina Danny

Valentina Danny-

As pessoas assistiram as notícias, começou do outro lado do mundo, fomos dormir e acordamos dentro do mesmo lado, a pandemia covid 19 unia países com um vírus ao mesmo tempo que separavam nações. O tempo já não era mais o mesmo, nem as horas, nem os dias. Isolamento entre as pessoas, humanos mais radioativos do que nunca, ativos na internet mais do que nunca, risco biológico entre familiares, distantes de entes queridos e amizades. Suas casas viraram seus empregos, academias, bares, escolas, faculdades, suas casas aconchegos, asilos, manicômios, presídio, armadilha pra mais feminicídio, suas casas, sua fortaleza, sua cidade, seu mundo, mas e quem não tem casa, habitat?! Pra todo lado só notícias de mortes e aqui na favela mataram mais de quatro. O mundo inteiro inquieto dividido; “fiquem em casa”, os sem tetos sem abrigo, partidas, vidas separadas e unidas. Auxílio, comida, saúde, a mesma corrida só que agora mais emergente do que nunca. Do portão de casa, vejo mulheres, mães de famílias, de máscaras passando na rua, voltando com doações das freiras numa tarde de sexta feira. Dois mil e vinte, ninguém duvida de fim de mundo, nem a criança. O mundo passou a ser o dentro de casa, o de dentro de cada um. A pandemia assolando com pressa, a fome não só por comida, a saudade atroz, o medo, despedidas a distância, as incertezas correndo atrás dos abraços da perseverança e do desejo de tudo isso e aquilo passar logo, e a vontade das coisas voltar a ser como antes. Esse antes se esfumaçando não deixa rastro, sumindo no ar se perdendo no espaço. A dor instalada. O agora, única coisa real que valia ou não valia nada, um termômetro de frequência aquecido positivo a zero grau negativo ao ponto de estourar, eclodir fios de alta tensão, quando não existe outra opção a não ser chorar e ter força. Noticiários na tvs, rádio, internet vão se repetindo, mais mortes por covid 19. A gente tenta não se deixar vencer pois não há outro remédio, meu verso teima romper o tédio, tenta ser entusiasta, sinestésico, talvez singelo, talvez o elo com o caos. Planeta terra, natureza e espécies refazendo-se pra algo a mais. Realidade feroz, a mente deita mas não dorme, ansiedade espreita as brechas da alma, palavras desaparecem querendo sair, seguindo percurso diferente, imunidade líquida, talvez eu esteja aqui pra contar dessa vez, talvez alguém leia por mim, por nós, pela gente. Meu verso continua.

Ouça Poema póstuma pandemia na voz da autora:

2 comentários em “Poema póstuma pandemia

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