sobre a morte em vida

Casulo (imagem Pinterest)

“se não fossem os fios de seda

que costuram a outra vida de viver em linhas de escrever,

morreria mais um pouco 

do que já se morre todos os dias”

Celane Tomaz

é preciso falar da morte. e do tanto que se morre junto quando algo morre ou alguém. e o tanto de morte que há, enquanto ainda se vive: sobre a morte em vida. sobre saber que morreu de muitas formas em relação a ontem, e morrerá mais um pouco até chegar o amanhã.

em alguns dias de morte, caminhando pelas ruas arborizadas onde moro, intrigantemente me deparei com algumas borboletas – símbolos de vida e esperança, de renascimento e transformação. para mim, outro retrato nítido e natural da morte.

segundo o menino, barata e insetos estranhos merecem morrer, borboletas não. um senso de estética, de poder e julgamento sobre o merecimento da vida. a vida como dádiva – divina virtude – há de ser prezada para ser merecida. a vida ao que é vil em detrimento ao que é belo, ao que pode ser contemplado ou trazer certa beleza a este mundo. pode ser que a vida não seja o bastante para provar o seu valor, mas sua morte sim.

Clarice viu sentido na existência da barata. e neste momento experimento também de sua massa branca, que só foi exposta porque a barata encontrou a morte e, por meio dela, a estranha lucidez – que é a prova-víscera de estar viva.

penso na audácia de falar da vida, nós, meros mortais, que negamos justamente o fato de sermos mortais. e mortais porque matamos de muitas formas, e não só porque morremos. e não matamos em nós para o desfrute de outras vidas. matamos seres e coisas de morte matada, de morte morrida.

penso na coragem de falar da morte. e de meros de nós, que relutamos contra o nosso destino, mesmo que seja a única certeza, desde que nascemos, além de que morremos em vida, tantas vezes, mesmo que não haja sangue.

é possível que para que haja vida, também seja preciso a morte. para que houvesse a luz, foi declarada morte às trevas – e tantos outros antagonismos tão contraditórios e tênues.

essa vida deve ser mesmo tão mínima, além de frágil. a morte destrona qualquer ser vivo mais ou menos vistoso. seja mariposa, borboleta, barata. a morte iguala os seres. a morte é justiça. 

há de ter uma eternidade, apesar de eternidade ser o estado presente das coisas. ela só existe para quem acredita. a eternidade dá sentido à morte – a insistência para que a vida seja dita e a morte morra no seu leito de silenciamento inquestionável.

o simbolismo da borboleta é tão óbvio, mas não tão óbvio quando se encontrou com a morte do corpo e do ser, e os dias parecem não ser mais apenas dias. as representações do mundo real não são mais aquelas atribuídas ao senso comum ou com explicações organizadas e lógicas. o que se atribui como sentido a partir de então tem seu filtro na dor. tem sua nova significância pelos olhos ainda úmidos, ainda enxergando sem muita nitidez. no luto como nome e como verbo – a única ação que faz lembrar que ainda se está viva.

o simbolismo da borboleta. não parece tão óbvio a espera pela transformação quando o casulo é um retrato palpável e explica imageticamente o que passou a ser. que tem sua mensura no encaixe e no ajuste do corpo da lagarta no casulo, e ambos são tão únicos, são só seus.

não quero dizer sobre o nascer, nem sobre a esperança que há para se tornar bela e vistosa tal qual a borboleta. pretendo falar sobre a morte. mas morrer em vida, refém da natureza e do tempo para que, assim, seja possível nascer outra vez. 

não pretendo falar do triunfo das asas quando prontas, nem da liberdade experimentada após a metamorfose, seja borboleta ou mariposa. 

pretendo falar da incerteza que acomete antes. desejo salientar sobre o lançar-se à reclusa sem saber ao certo o que virá a ser. quero dizer que nascer é cumprido e comprimido, longo e doloroso, que a espera é solitária e escura, justíssima e, por nós, muitas vezes injusta dentro do casulo. são dias de escuridão. a única verdade é a consciência dos tantos fios de seda que sustentam o nosso mundo ali – pequeno e vulnerável, fechado e comprimido.

absolutamente ninguém conhece a dor da lagarta, enquanto se transforma. nem ela sabe com exatidão seu próprio tempo. em quanto tempo morrerá para nascer. 

passa-se rapidamente por esta parte do símbolo. raramente se debruça sobre ou atenta-se sobre as dores de estar pendurada no casulo apenas por um fio. por um fio de tudo.

não sei muito sobre a mulher que vos fala. não sei se desse casulo – frio  e apertado – sairá uma vespa, borboleta ou mariposa. sei dizer que ela tem mais perguntas do que respostas. mais medo do que força. e que ela sabe que morre do seu estado larva, que carregava seu peso lento e se arrastava.

não sei quando a mulher libertará as primeiras cores de suas asas, rompendo os fios que a aprisionam, apesar de preservá-la. mas sei dizer que se não fossem os fios de seda que costuram a outra vida de viver em escrever, morreria mais um pouco do que já se morre todos os dias.

a borboleta pousou no concreto quente e áspero da rua e o medo a fazia fingir-se de morta. e qual consciência a tomava para que dessa forma pudesse se proteger da morte, mesmo que já tenha morrido uma vez, quando lagarta?

o medo da morte. 

de outra morte. o medo do que não conhece, do que a pode levar à morte. o medo de não haver mais casulo. o medo de o ciclo se findar ali. 

o medo. 

o medo que também a fez, subitamente, bater suas asas

e voar.

11 comentários em “sobre a morte em vida

  1. Viver é caminhar por esses desertos apertados e escuros dentro da gente. Descobrir-mais do que se é, menos do que se imaginou? Dúvidas, perguntas, não há respostas. Só luta.
    Muito feliz de te ver publicando!
    Sinta-se em casa de novo

    Curtido por 1 pessoa

  2. Os fios de seda, a lagarta e a borboleta se foram, voou e pousou em um mais belo jardim, mas a essência de sua transformação é tão sentida e tão vivida quanto querer ser essa transformação em si.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Nossa! Que perfeição!!! Descrição minuciosa de tantos detalhes que a vida nos desafia a decifrar em tempos como os de hoje. Parabéns Celane, sua escrita além de sensível, é muito reflexiva!!! Ameiiii!!!!

    Curtido por 2 pessoas

  4. Quanta sutileza nas palavras. Compartilho de muitas sensações neste texto.
    As asas irao se colorir , a borboleta irá voar ,mas sem medo ,fortalecida e madura. Te amo minha mana,que bom que publicou esse lindo texto. Que venham muito a outros com essa emoção e sutileza.

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  5. Tão necessário e urgente falar sobre a morte, essa vizinhança tão próxima nesses dias… seu texto abre fendas no tempo e dá espaço pra gente perder o medo de olhar pra ela como vivência. Obrigada por partilhar, Celane.

    Curtido por 1 pessoa

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