laço infinito

Carolina Tomoi –

Seu rosto já não demonstrava o que sentia, não mais espelho de sua alma, como diriam antigamente. Na verdade talvez ainda o fosse e já não sentisse realmente nada.

“Bom dia! são exatamente sete horas do dia vinte e sete de maio de dois mil e vinte um. O dia está ensolarado, com mínima de 16º e máxima prevista para 26º. Seu percurso para o trabalho é de 1h38min. Tenha um ótimo dia!”

Abria os olhos e sentia a luz ofuscante. Piscava várias vezes, apurava suas lentes ainda biológicas, agradecia a gentileza se sua assistente pessoal. Verificava as notificações das redes sociais que frequentava, acionava a playlist “Despertar” e seguia adiante. Acompanhada de sua fiel assistente, já programava a parada para pegar o café sem que esfriasse pelo longo caminho, para abastecer, conferia os atrasos e radares do percurso. Vida sem surpresas, acasos programados.

Com tela nas mãos e cores, sequências e padrões nos olhos vidrados, experimentava o prazer de não sentir. Por alguns minutos apenas era possível vivenciar o prazer de combinar formatos e suas ondas luminosas conseguindo bônus e estrelas sempre no nível máximo. perfeição. o mínimo. ou o possível recomeçar de uma partida perfeita.

Algumas vezes era interrompida por monótonas vozes que a lembravam do horário do trabalho, de comer, de alguma conta a pagar ou outra ligação qualquer com um mundo real: filhos, telhado, carro quebrado. trabalhe, junte moedas, troque por itens que necessite. com objetividade, persistência e atenção todos os desafios podem ser superados. não se acanhe em cumpri-los com rapidez, afinal outros virão e poderão acumular mais e mais vitórias e recompensas. porque a vida real não é assim. Ela não compreendia. Afinal sentia-se satisfeita por estar ali.

Tinha sua família, emprego, casa e smartphone. Esforçava-se para pagar a parcela do novíssimo último modelo pois gostava do melhor e mais novo quando se tratava de tecnologia. Seu plano de internet era seu segundo luxo, porque o básico não seria compatível com a máquina potente que trazia nas mãos. E só carecia de um tempinho para desfrutar de seu investimento pessoal. o lugar preferido no mundo. os pratos preferidos. drinks e bebidas. amigos e avatar perfeitos.

Não podia entender como isso poderia prejudicá-la. Mais ainda, não suportava afirmações sobre como esse tempo era inútil e desperdiçado. há tanta conexão neural. reles mortais ligados a coisas mundanas, às desprezíveis pessoas, à natureza, jamais seriam capazes de entender.

A pandemia trouxe enfim algum alento. poder desfrutar do tempo. Sem festas e compromissos presenciais, alcançava níveis estratosféricos. Seus avatares: os mais bem-sucedidos; suas equipes: potentes e vitoriosas; suas moedas: compravam qualquer atualização; ampliava sua rede de contatos como nunca tivera antes sonhado.

Vitoriosa e isolada.

“Bom dia! são exatamente sete horas do dia vinte e sete de maio de dois mil e vinte dois. O dia está ensolarado, com mínima de 16º e máxima prevista para 26º. Seu caminho para o trabalho é de 1h39min. Tenha um ótimo dia!”

Abria os olhos e sentia a luz ofuscante. Piscava várias vezes, apurava suas lentes ainda biológicas, a agradecia a gentileza se sua assistente pessoal. A relação pessoal que lhe restara.

2 comentários em “laço infinito

  1. “Acasos programados” dói o coração até de uma virginiana. Texto ótimo! Relata muito das nossas angústias que assustadoramente é alívio para tantos… tempos de contradições.

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