Maioridade Materna

Munch, Melancolly II, 1898, xilogravura.

Carolina Tomoi –

Às de colo vazio, latente

Aos que perderam o colo.

Creio num momento no corpo da mulher que uma voz tão intensa fala tão alto uníssono a cada célula de seu corpo que é difícil resistir. A maioria não resiste. Algumas nem tomam ciência que seja possível desistir, deixam o corpo as levar. E assim a espécie se perpetua e se multiplica pelo globo.

E a sensação de gestá-los é tão plena e incomparável que também é inevitável desejar que esse sentimento seja eterno. Difícil explicar. Tão fácil sentir. Mas assim que deixam seu colo e deixam de receber o melhor de si, passam a receber o pior do mundo. O que era só corpo, agora racional, só quer voltar no tempo e fazer tudo diferente, novo, melhor. Mas isso é possível? Reproduzir o amor que foi constantemente retificado pelas batidas de seu coração? Quem até hoje pode ouvir assim de dentro teu coração? Difícil explicar. Tão fácil sentir.

Retirado de seu colo e repousado em seus braços: só dá pra respirar e aos poucos ir soltando. De umbigo cortado, filtram-lhes o alimento, mas não o ar. Desmamados, filtram-lhes a água, mas não o alimento. Eretos, filtram-lhes os sons, mas não mais a água. E assim aprendem a libertá-los para o mundo feio, sujo, contaminado e corrompido. Inconformadas passam a tentar melhorar o que veem para que vejam o que é possível viver. será possível abrir os olhos? há beleza no mundo para o qual os trouxeram? Arrependidas de seu desejo irracional… seu egoísmo só é percebido depois. Os corpos não voltam no tempo já as mentes. algo mais a fazer senão cuidá-los. não permitir que sofram. Mas isso é possível? Difícil explicar. Tão fácil sentir.

Melhor deixá-los ir. Amá-los assim a ponto de vê-los partir. Porque lhes foi dado o dever de protegê-los por alguns meses, alimentá-los por alguns anos. Vê-los partir diariamente, enquanto se transformam nas pessoas que foram gestadas para ser.

Evidentemente elas querem sempre partir antes. Não se enterra parte de um coração. É que há – todo momento – a sensação de querer voltar e fazer de novo, fazer melhor. Ainda resta o desejo de protegê-los da morte porque apenas sabem que se tirado de seu colo pra sempre, nem dá pra respirar mais.

Ouça Maioridade Materna na voz da autora:

7 comentários em “Maioridade Materna

  1. Que coisa linda!!!! “Quem até hoje pode ouvir assim de dentro teu coração?” Me arrebatou!
    Eu digo que só minhas filhas me conhecem verdadeiramente, só elas sabem do meu melhor e do meu pior.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Te li e depois te ouvi. Não sou mãe e talvez nunca passe por esta experiência, mas me encontrei em cada palavra de proteção, de aconchego e incertezas. Sua escrita, pra mim, é como a linha tênue da luz balão de João Cabral, um sopro, um fio de alento e humanidade, um cordão umbilical desse existir mãe no mundo, fincado no desejo profundo de um mundo são para dor para os seus. Lindo, Carol! Gracias por dar a luz a essa experiência.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida, grata pela leitura. Nossos corpos e vozes se unem num monumento que é a mulher… Sentimento universal em nós do amor e do cuidado! Somos materna!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: