IMEMORIAL

https://img.r7.com/images/sao-paulo-covid-mortes-cemiterio, acesso em 01/04/2021.

Aos 3950 mortos hoje (podia ser mentira, mas não é!) Responsável: O genocida, Aos 20 mil torturados e 434 mortos ou desaparecidos pela ditadura militar no Brasil

Carolina Tomoi-

Haveria silêncio na noite escura,

aquela sem luar ou estrelas.

Ouvir o vento,

o balançar das folhas,

aroma da chuva passageira,

cricrilares,

alertas monossilábicos a despertar crepusculares pares

que compõem a silenciosa sinfonia.

Apito profundo que rompe a composição tão pesada quanto metálica

que estala a espinha.

Anúncio passageiro,

agonia imprevista.

Recuperar o silêncio.

Clamar por ele,

necessidade da mente.

Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração.

Haveria silêncio entre os que desfrutam do alívio eterno,

aqueles nas filas das UTIs,

aqueles sem oxigênio ou vacina.

Ouvir bocas que cessaram gemidos,

narinas que já não inspiram,

cérebros que já não negam,

tampouco questionam.

Velórios com choro, sem consolo.

O luto por três ou quatro milhares.

Tragédia anunciada que explode,

agonia insone prevista.

Recuperar o silêncio.

Clamar por ele,

necessidade da mente.

Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração.

Haveria silêncio no caminhar das esquinas quebradas,

aquelas pisadas apressadas, mas cuidadosas.

Ouvir o tilintar no vazio

outrora o requentar da refeição parca,

lembrar dos tempos de fartura.

Respiração ritmada e abafada.

Medo do invisível.

Ruídos disfarçados na subida,

passadas largas em marcha.

Estampidos secos que maculam o silêncio.

Medo do visível.

Incerteza de vida, certeza de morte.

O seco som de corpos ao lago, ao largo, ao front, ao chão.

Periferia violada,

agonia insone prevista.

Recuperar o silêncio.

Clamar por ele,

necessidade da mente.

Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração.

Haveria silêncio nas gargantas,

aquelas censuradas, amordaçadas, torturadas e assassinadas.

Calar nomes e planos, falar revoltas.

Mentiras em aço e concreto.

Os fios, os ferros, as estacas, as alavancas, as cordas, as correntes.

As medalhas, os louros, a glória de quebrar o silêncio.

As dores, a humilhação, a vitória de suportá-lo.

Identidade revelada,

integridade rasurada,

despatriada, anulada,

agonia insone prevista.

Recuperar o silêncio.

Clamar por ele,

necessidade da mente.

Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração. Inspiração. Expiração.

Haveria o silêncio daquele que canta o mundo insone.

As cenas, seres, sentimentos.

Os sons, as palavras, os sentidos.

O risque-risque da tinta no papel, os dedos nos teclados.

Gritos abafados no travesseiro.

Rascunhos inconclusos engavetados.

Sentimentos transmutados.

Valores questionados.

Sub-grita, sub-ouve, sub-entende, sub-verte!

A força do real é fortaleza.

Inspiração. Expiração.

Recuperar a voz.

Clamar por ela,

necessidade do mundo.

Ouça Imemorial na voz da autora:

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