Devaneio da chuva de hoje de manhã

foto retirada da internet (Depositphotos)

por Celane Tomaz

há fluxo em mim e lá fora.
há tempos não acordo com a torrente de tanta chuva. e aquele barulho ininterrupto, que de prontidão e escuta atenta, vivo e reparo dentro do oscilante movimento entre a maior e a menor intensidade, advinda da mesma força uníssona, mesmo quando não há raio ou qualquer trovão.

tempestade pela manhã.
a trilha sonora para a dormência de alguns, mas para outros, a brutalidade das águas invadindo seus sonos interrompidos.
penso nos passos suspensos e desviados nas ruas, nas calças e bolsas encharcadas, nas pausas embaixo das coberturas, na tentativa de salvação dos desavisados, nas esperas antes das chegadas e das partidas e no tanto de paciência inundada.
mas as nuvens precisam se esvaziar e as águas precisam secar.

poças e poças crescem e transbordam de presente. alguns temem ao olhar para cima. o céu também pode dar indícios de tempo fechado, das impossibilidades e dar sinais da obscuridade e da vinda do caos.
enquanto a chuva ainda cai, e os passos evitam o mergulho, ainda é impossível perceber com certa nitidez o meu reflexo na verdade das águas. estranhamente, quanto mais escura, suja e barrenta a água da poça, mais clara e evidente a nossa imagem se revela a nós.
gotas esperadas e cinzas lavam os quintais, mas se acumulam nas calhas das casas, fazem lama da poeira acumulada.

a chuva, logo pela manhã, faz do dia inteiro manto de superfície cinza e pálida, mas ressalta o cheiro dos canteiros e dos ramos das flores, que brotam intrusas no meio e nos cantos da cidade.
apesar da pausa e do respiro de um ar mais úmido e tragável que nos dá, os danos também ficam sobre o concreto – o que fica, o que se leva, o que se bagunça. a desordem e os danos das perdas e do irrecuperável. e a necessidade de recomeços quando as águas começam a baixar.

a forte chuva cala o canto dos pássaros, mas dá vida e alento às árvores onde repousam, plantam seus ninhos e fazem deles um lar.

depois da chuva, resta sempre um tanto de vida ou de erosão. as águas carregam consigo efeitos colaterais e tempestam raios de claridade e contradições.

a brisa sutil e o arrepio na pele dão a impressão de que haverá mudança de estação. talvez a previsão do tempo tenha cometido algum equívoco, talvez eu tenha me distraído e esquecido o guarda chuva. talvez precisasse ter na bolsa algum casaco.

há fluxo em mim e lá fora.
as águas minam. lavam e afogam. adiantam o brotar e atrasam.
nos noticiários matinais da TV já há relatos em volume.
e a brisa fria e silenciosa do depois se mistura com a fumaça quente do afago do café.

Ouça “Devaneio da chuva de hoje de manha” na voz da autora

2 comentários em “Devaneio da chuva de hoje de manhã

  1. “estranhamente, quanto mais escura, suja e barrenta a água da poça, mais clara e evidente a nossa imagem se revela a nós.”

    O retrato da nossa natureza humana!

    Curtir

Deixe uma resposta para Anônimo Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: