Um Brasil sem carnaval

foto: Fernando Solidade – Bloco Afro É DI SANTO / Carnaval 2020

-Mara Esteves

“Eu não vou chorar

Senão a maquiagem vai borrar

Lúcifer está batendo em minha porta

PEC, PEC, PEC, PEC, PEC que pariu

PEC, PEC, PEC deram um GOLPE no Brasil”.

( Marchinha: Agora Vai é Pé no Chão e Rua – Bloco Agora Vai/ Ano 2017)

Neste ano o apito, o tambor e o coro de vozes entoando as marchinhas se emudeceram. As ruas e vielas da cidade já não ecoam as multidões. Os foliões que seguem o Bloco do Beco, o Desbundas Artes, o ÉdiSanto, o Agora Vai e tantos outros blocos tradicionais da cidade, sofrem as dores de um amor platônico. Um amor desejado, esperado sem a garantia do encontro, mas que não chegou ao seu fim.

As fantasias, continuam amarrotadas e guardadas no fundo do armário, junto com as maquiagens brilhantes e repletas de glitters e purpurinas. Permanecem ansiando a pele e seus adereços.

Para para para para,

assim vai acabar nossa amizade.

Te chamo pra tomar uma cerveja

e você só ai no zap zap”.

(Bloco do Beco – composição Augusto Cerqueira/2017)

As micro partículas reluzentes, que em outros tempos, flutuavam no ar e calmamente se acomodavam em cada canto, marcando o movimento frenético da casa, não deram o ar da sua graça. Mesmo que faça uma averiguação minuciosa, não encontrará nem mesmo um pequeno ponto de brilho e luz no rejunte do chão e nem impregnado no lençol. Aqueles vestígios que encontrávamos na quarta-feira de cinzas e que alegravam a recente lembrança da felicidade vivida e compartilhada nos últimos dias. O cenário é opaco e seu silêncio, corta mais do que o fio de uma navalha afiada.

A casa que sempre foi ponto de encontro e partida em bando para cumprir a agenda de blocos e folias, ecoa a solidão dos dias, já não se ilumina de ser abrigo e camarim improvisado para essa gente comum que anseia o ano todo, para erguer um sorriso-estandarte armadura e proteção, seguindo os blocos e a multidão.

A potência de nossa criatividade veste nossos corpos e alma, a liberdade plena que se sente ao rodopiar nas ruas e avenidas da cidade é leveza e resistência. São trabalhadoras e trabalhadores, que gritam a liberdade de colocar seus sonhos e fantasias à desfilar por aí. A rua que sempre foi nossa, é palco e plateia. É multidão. É ser único e ser um todo sem fim.

Desbundas, desbundas artes

Todo mundo ganha

Quem faz arte quer sua parte”.

(Bloco DesbundasArtes, carnaval 2012)

É no carnaval, que sinto a catarse de dor e prazer de viver no submundo do 3º mundo, de um país racista, escravagista e sexista, de um povo forjado a ser feliz para resistir. Quatro dias em que nos transvestimos do que é a nossa potência. A resistência de bailar a vida, sorrindo e chorando no meio da avenida.

O Ilú Oba de Min abre o carnaval de São Paulo, trazendo para a Av. São João, sua bateria formada exclusivamente por mulheres. Mulheres, sempre, na linha de frente. Seja na luta pela garantia de direitos ou comandando a folia. São elas, as rainhas da melodia.

Carnaval nunca foi e nem será distração despretensiosa. É denúncia forte, contundente. É beleza e renúncia. É a arte a serviço do ofício de forma plena e abundante.

Na terça-feira quero que você vá gina

Na terça feira quero que você vá gina

Para eu te lembrar

Que arte e censura não tem rima”.

(Gotinha no Oceano – Bloco Agora Vai/2018)

Neste ano, sofremos a ausência dos sambas-enredo e das marchinhas para entoar as dores, os amores e as identidades dessa gente. Não questiono a necessidade que vivemos, que nos obriga, prorrogar a hora de voltar a carnavalizar. Nós que somos povo, queremos viver. Porém na maré de repressões e no aprofundamento das práticas ditatórias e totalitárias promovidas pelo desgoverno que assola este país, não houve uma comoção televisiva sobre a ausência do carnaval. Talvez não queiram lembrar do lugar que o carnaval ocupa na vida dos brasileiros. A liberdade dos corpos e das multidões.

No país em que o ano só começa após o carnaval, o que esperar de um calendário sem os quatro dias de folia?

Que não seja eterna a quarta-feira de cinzas.

2 comentários em “Um Brasil sem carnaval

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