No vagão

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Cecília Arguello

Arlete Mendes-

Estou em meio à multidão. Tenho os olhos fixos nas faces. Sempre ocultadas. Ninguém exibe a própria face. Máscaras por cima de máscaras. Que mistérios guardam dentro de si? O que temem revelar?

De vez em quando ouço o que dizem. Falam sobre o personagem da novela, reality show, sobre o time de futebol, sobre o patrão mal criado, sobre o namorado mal criado. Falam para se esquecerem o vivem, assim, nessa deseducação que é a vida.

Uns mais outros menos. Uma quebradura de braço, uma cólica, uma rejeição, um amor para sempre perdido… Quantos bilhões não estão agora num sofrimento delator? Delatora é a dor. Ela também serve para dilatar as carnes. Expandimos com a dor, ah, sim.

O freio do trem lança um grito-atrito de dor. Ao aço o fogo é doído. A gata no cio grita de dor. O velho insufla o bafo de dor. O magma explode o ventre da terra, que chora de dor, por isso gira, por isso não pode parar de girar.

Para cada olho que capturo está lá um hieroglifo agudo.  Cada pupila encerra-se num círculo fechado de dor. Quem me engana, se a dor em mim também é humana. Quem me engana?

Ouve-se o silvo, que dói o ouvido. Eu sinto.

O maior problema é quando ela se vai. Deixa o vazio da dor. Não se sabe se é para esperar por mais ou se ela simplesmente se foi para o nada de onde veio.

Que permaneçam ocultas as faces para minimizar a dor que carregam.

Enquanto isto a multidão caminha. Através da vidraça eu vejo.

Não há espaço para dor neste mundo. Embora cada um, cada ser vivente a carregue-a latejante pelo resto da eternidade.

Dizem que quando morre a dor some. Será? Talvez ela continue a pulsar feito as estrelas do céu claro. Quiçá…Oxalá,assim seja.

De vera não sejamos apenas um acumulado de DNAs…

Agora que se foi. É apenas um vago e distante cintilar de estrela num céu anuviado. Vaga lembrança. Um dia cessa. A multidão tem pressa. É o sinal. Chegou. Correm, não olham para trás, se vão. Adeus. Eu fico.

Ouça “No vagão” na voz da autora.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

6 comentários em “No vagão

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