Lua minguante

Da série Campo Limpo Selvagem, colagem sobre aquarela – 2020 – Raíssa Padial Corso

~Por Raíssa Padial Corso

A lua minguante me derrubou.

Eram 19 horas, a rede embalando os joelhos com suas quedas, cicatrizes de caminhos mal andados, cicatrizes de agir como se fosse lua crescente, ovulação na cheia. Vigorosa como se o sol batesse direto nas células.

Cai na besteira de subverter a lua em mim, quando a feiticeira chega, grita tanta intuição, que se espalha por todos os lados, grita tanto que hora ou outra a escrita te pega na curva, te denuncia…. e tu lá, com cara de menisquência, nem me viu, progesterona fazendo em questão de minutos, muitas rugas nascerem, as costas doerem, eram 19 horas. Mercúrio massacrando as comunicações, embora o útero clamasse descanso de todas as funções que ser mulher envolve.

Eu repito, que meu horário só quem compreende é a hortelã. Esta manhã, após a necessária derrubada minguante, feliz porque a moto do pão não passou com suas buzinas, porque o carro dos produtos de limpeza não me acordou, como quase todas as manhãs( ele que sempre lembra que a vida é uma eterna faxina). Sim e não é o oráculo, o carro do gás é infalível. Só pra nostalgear.

A lua minguante me disse que o Campo Limpo tá ficando pequeno. ue é preciso escreviver realmente na poética.

As vezes meu corpo exige silêncios.

Calar a boca é utopia. A feiticeira gargalha de mim, eu aprendo com isso.

Minha vida, embora não tão minha, não é assim gregoriana.

Com a lua assumi todos os pactos de sangue, quando desvio e me coloco em ponteiros apartados de mim, a foice vem como afiada lâmina.

Pré menstrual? Pós menstrual?

Não adianta, Psiquê é labirinto.

Escrever na primeira pessoa sangra quase tanto quanto a inauguração do stand de tiros da rua de baixo,seus clientes com sorrisos de coveiros são nossos próximos assassinos.

Escrever na primeira pessoa dói, quase como a cigarra cantante, com invisíveis lancinantes espadas a se mutilar.

Escreviver no Campo Limpo, é saber que terá cachorro latindo, prêmios do gás, a luta dos carros de som com suas promoções, a batalha dos dois maiores mercados do bairro.

Escreviver no Campo Limpo e a avivante idéia de insistir na poética.

Ananke se diverte comigo e diz: essa é como eu… INEVITÁVEL.

Ouça Lua Minguante na voz da autora:

2 comentários em “Lua minguante

Deixe uma resposta para Jesuana Sampaio Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: