FORASTEIRO

foto:  Gerald Larocque.

Texto publicado originalmente em 09 de desembro de 2020.

Elisa Dias-

Estávamos frente a frente, eu titubeava, as palavras faziam rodeios na tentativa  de camuflar a minha aflição, meus anseios  e receios, com meus sentidos paralisados e meus instintos  famintos da fome do homem, salivava ao lembrar o gosto da sua saliva, entre palavras e risos eu  criava um monólogo com falas  decoradas, acontece que ele me revirava  do avesso  de um jeito que eu até esqueci do texto, no pretexto de não dizer o que não disse no outro dia, eram minhas ações corriqueiras e quem sabe no meio desse amontoado de coisas minhas, não encontrava coisas que também tivessem  sido suas um dia, mesmo na forma translúcida que te apresento meus gestos de carinho e afeto, queria que soubesse um dia, o motivo pelo qual eu odeio fins de semanas e feriados é que sou sucumbida pela solidão, o vazio, busco me alegrar com a alegria das outras vidas e me conformo por sentir em seus  rostos e braços  o alívio da breve  pausa em suas rotinas.

Então respiro, olho pro céu, conto as estrelas nas pontas dos dedos  até não ter mais dedos pra contar, na intensão de  te mostrar as profundezas das minhas águas,  que como um mar revolto  por muitas vezes me afogo nelas, meu instituto de sobrevivência humana formam dois rios de água e sal, que transbordam pelo meu olhar, um breve alívio para que  eu possa respirar. Eu iria também te dizer algo sobre meu medo do escuro, te contar as histórias das cicatrizes que tenho na perna direita, e as que tenho na alma também.

Creio que foi um descuido seu parar por alguns segundos seus belos olhos da cor dos 7 mares, sobre o meu olhar ligeiro,  sorrateiro, os vi tão de perto a ponto de neles não me encontrar,  nem ao menos  ver meu reflexo no seu espelho ou em qualquer objeto que fosse teu, então calei minha voz,  eu sempre entendi o seu  silêncio, reforçava em mim a certeza de você eu sempre fui ausência, carência, todavia eu sentia saindo pelos seus poros, na sua respiração o quão frágil me via, me teci de todas as minhas distrações, palavras soltas, histórias repetidas,  mais  são nos meus devaneios que me atento a cada detalhe que pertence a você, não precisa usar palavras pra me dizer coisa alguma,  creio que já partilhamos do mesmo desespero,  acho até que nos encontramos no vale dos aflitos, eu também já conheci o amor um dia, beijei sua doce face , voe alto no céu porque ele me deu um lindo par de asas e também as cortou quando me atirou no inferno, eu conheço muito bem  a escuridão.  Não se deixe levar pelas poucas vezes em que vi o sol nascer ou pelo tardar  da minha doce primavera, não leve consigo a eterna marca de Caim, eu te dei de bom grado o fruto do pecado,  o sangue já foi lavado e ele está em minhas mãos, foi no seu semblante fechado, homem misterioso calado, reservado, que meus sentidos se afloraram,  é que você  forasteiro desbravou meu corpo como um país distante , não me condene ingênua eu conheço a vida tanto quanto  você, apesar de não  falar tantas línguas , quase não estive em lugar algum, te ofereço minha doçura e gentileza pois  embaixo dos destroços da minha vida foi tudo o  que me restou, eu trago em mim a leveza da juventude e ainda sou capaz de ver o lado bom da vida,  se te tenho tanto zelo é pelo fato que te guardo como coisa rara na minha memória, eu conheço seus ventos, assim como  seu espírito resplandecedor ecoa no universo, pois  ele é livre, eu jamais te impediria de voar,  ainda digo que prender meus dedos nos seus cabelos ora aloirados, ora grisalhos e te afagar no meu peito é combustível de vida, eu sei que estou só de passagem na sua viagem, eu tenho a clareza de que você conhece a imensidão  das minhas águas  sei também que  prefere sempre nadar  no raso, mais um dia uma correnteza te levar  pro fundo do mar e não tem nada que você possa fazer pra mudar o destino, o mesmo que te cruzou  no meu caminho e nem sei como, já que fiz questão de apagar  as linhas da vida desenhadas nas minhas mãos.

Nesse tempo em que na minha vida você esteve presente ausente eu  me estudei em livros  e percebo que não me encaixo em poucas horas  no decorrer de algum dia, eu gosto de  vastidão dos sentimentos e seus momentos infindáveis, eu gosto das imensidões é onde eu me encaixo e sou intimamente parte do que chamam de intenso, nunca coube em lugares pequenos, e nunca  precisei de um cantinho empoeirado nas vidas que cruzam a minha vida,  e muito menos preciso da obrigação do, boa tarde, boa noite, bom dia. 

Como nunca me vi em você, não sou capaz de te reconhecer com clareza em mim,  só sei que gosto de contar o tempo com calma enquanto te espero acordar e vejo o dia entrando delicadamente pelas frestas da sua janela, lamentando no fundo, por ser só mais uma entre tantas elas,  sei que te faço vaidoso  e muito te intrigo com minhas peculiaridades, sabe meu coração é um instante um beijo de novela, a minha fragilidade é meu maior dom  a brevidade da  vida me faz temer passar  por ela sem dizer, sem sentir, sem olhar nos olhos, beijar a boca e tocar almas, gosto da gentileza  suave da  sua voz e da sua sabedoria,   não deixe minha ingenuidade catalogada na sua pilha de livros não me leia assim, não subestime os passos de quem parece andar sempre nas nuvens, é que de lá de cima nossa visão é mais ampla, até te observei daqui outro dia, eu alimento em mim só que é palpável, você escapa pelos dedos, feito ar e mesmo sem minhas lindas asas não tenho medo de altura,  ando em cortada bamba sem pisar em falso e sei me guiar  até em outros caminhos, não  se assuste com o que eu escrevo sobre nós é que eu transformo todas as coisas da minha vida em  canção é poesia!

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