DESFIGURADO

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‘Unnamed woman’, de Jarek Puczel

Texto publicado originalmente em 31 de outubro de 2020

Celane Tomaz-

Busquei a luz e o amor.
Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.”

Hilda Hilst

por Celane Tomaz

Eu não queria ver no espelho o teu rosto desfigurado. A tua face irreconhecível e a tua aparência pálida, longínqua e ondulada.
Eu não queria sentir o pesar da tua imagem na pausa do estranhamento.
Teus olhos líquidos apagados e tuas mãos frívolas apalpando as nossas distâncias.
Eu não queria desconhecer a textura da tua pele, tatear lentamente o teu sumiço e perceber terna o silenciamento da tua voz – manta calada por vãs palavras numa superfície suspensa de ternura e tormento.
Eu não queria ver teus movimentos diminuídos a rastros de pó que o vento espalha. Eu não queria ver confundidos teus passos em borrões de lama, lavados a nada.
Pensar teu corpo em vertigem. Correr meus olhos por teus lábios como as correntes efêmeras na água.
Ver teu ser único desconstruído, fragmentos em mil pedaços, embaçados cacos de vidro, finos fios e farpas.
Eu não queria entregar ao desenlace os laços de sumo, nem contemplar nosso sumiço surdo em fumaça.
Eu não queria a tua nudez sobre a minha. Disforme e absurda, diluída no escorrer da ponta dos dedos.
Eu não queria espiar teu esconderijo e ser como quem suporta o espinho na carne, nem queria que se tornasse só lembrança de pétala pisada, desprendida com cheiro de dor.
De ser pólen dissolvido, o súbito sopro do vento o levou.
De ter sido raíz frágil já não é mais flor.
Tantos ecos nos ensurdeceram.
Não pôdes me sentir preso aos teus limites, refém dos teus contornos, amarrado ao emaranhado das tuas razões.
Não pôdes me tocar de dentro dos teus abismos. Não pôdes me ver dos penhascos dos teus vazios, escuros e faltas. Não pôdes segurar a minha mão.
És livre nos mosaicos de vida. Perdidamente solto. Tão livre que desprendeu-se.
A vida é tanta, tão vasta… devasta.
Não pôdes me ouvir. E foi por isso que não pude gritar-te.

Ouça “Desfigurado” na voz da autora:

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