FAROFEIROS

Elizabeth Lennie

Texto publicado originalmente em 21 de outubro de 2020.

Arlete Mendes-

Domingo. A torcida para que fosse dia de sol era grande. Crianças e sábios praticavam as mandingas. Sol desenhado com sal no meio do quintal. Ovos e barra de sabão jogados em prece em cima do telhado. A busca por sete formigas vermelhas, seguida de um enterro com ladainhas: “formiga, formiguinha, leve o frio, traga o sol para tuas amiguinhas”…

Findo os ritos e sacrifícios. Restava palpitar o peito e quase não dormir esperando que o rádio-relógio, programado somente para trabalho, fosse agora o despertar de uma alegria coletiva.

Dia de excursão. O inatingível litoral. Para muitos seria o primeiro encontro com o mar. Rumados do sertão, direto para os recônditos da capital, lazer era um luxo que ali ninguém podia ter.

Quando recebeu a fabulosa notícia, Veridiana ficou eufórica, entre gritos, pulos, parecia guardar naquele corpo franzino uma legião de meninas. Tanta algazarra fez que aborreceu a mãe, já exausta pela troca entre o trabalho doméstico mal remunerado ao trabalho doméstico sem remuneração alguma.

A dureza da vida lhe fizera receber um croque no meio do cocuruto, amassando-lhe os cachos pretos cor da noite. Nem a irritação da mãe, ou o croque doído abalaram seu entusiasmo, acalmara o corpo, mas por dentro ainda soltava gritos mudos, em buliçosa felicidade.

Verinha vivia sozinha com a mãe num cômodo alugado nos fundos da casa de Dona Justina, viúva, a caminho da velhice, guardiã de Verinha de muitas outras crianças que não tinham com quem ficar, enquanto os pais atravessavam a cidade, espremidos nos tumbeiros motorizados, a serviço dos patrões.

As crianças tinham por Dona Justina amor e medo, era muito brava e muito terna. Ainda que lhes catasse os piolhos, lhes desse o de comer na hora certa e lhes ensinasse as melhores brincadeiras, um olhar de desaprovação de Dona Justina era tão poderoso quanto o raio de Iansã, fazia tremer o chão da molecada toda.

Nunca erguera a mão para bater, nem a voz para maldizer. Dessas autoridades de quem não precisa pedir licença para entrar em lugar nenhum. Possuidora de um poder calado, que morava no canto do olho, dali emanava lei e justiça, governo organicamente orquestrado.  Os meninos percebiam essa força, num ousavam estrepolias.

Tinha muitos dons, Dona Justina, quando estava macambúzia, nublava, quando estava estrelada, a noite pipilava, e se brava…vixe, tome raio e trovoada. Foi Verinha que percebeu esse tesouro escondido e contou aos amigos, para testar se o que ouviram era verdade, foram aprontar nas costuras da Dona Justina.

Multiplicaram em miúdos os retalhos que ela guardava pacientemente para uma colcha futura. Quando Quinzinho estava a picotar o último retalho, caiu um raio trovado que estremeceu o vidro da janela, o moleque largou a tesoura de imediato. Atrás dele estava Dona Justina de mão na cintura e olhos apertados.

Não precisou pedir para que limpassem os festejos multicolores pelo chão. Ficaram pianinhos, sentadinhos em roda, sob pequenos tamboretes, feito santos no altar.

Dona Justina deu a cada um, linha, agulha, tecido e ficaram a tarde inteira aprendendo a costurar, enquanto a chuva fazia subir dos tijolos um vapor quente, que de tão cheiroso dava vontade de comer. Era assim que ela punha os danados na linha.

Verinha cochichava uma mensagem no ouvido de um e pedia para que passasse adiante. Brincadeira que aprendera com Dona Justina. Telefone sem fio improvisado, sem a tecnologia do fio e da lata.

Secretamente cochichavam de orelha a orelha. O fato recém comprovado, ela comandava os bons e os maus tempos. Que nada adiantava enterrar as pobres formigas, nem gastar o sal roubado da cozinha para desenhar o sol. Tinham de agradar à Dona Justina, senhora dos raios.

Combinados. Naquele restinho de semana nenhuma intriga, nenhuma rusga, nenhum desagrado, nada disto podia ocorrer diante de Dona Justina, porque eles iriam pela primeira vez ao mar.

Seu Aurindo, dono no bar, havia organizado a excursão. Fez movimentar a alegria e conseguiu pagar o aluguel, pois o que entrava das pingas, dos ovos coloridos e dos torresmos era pouco.

O frango para torrar e curtir na lata de farofa, os Ki-sucos, as laranjas já estavam comprados. Ah, a praia do Zé Menino seria toda deles…

As  mocinhas amolavam os pais para comprar biquíni, ansiavam experimentar o que é usar roupa de banho. De patotinha, já haviam arranjado grana para comprar o óleo de amêndoa que compartilhariam para garantir o bronzeado e exibir o tanto que pudessem a marca eternizada daquele dia de praia.

Acontecia algo parecido com os privilegiados da rua, que, com muito esforço dos pais, pagavam parcelado a excursão escolar, daí a marca não podia sair assim, no primeiro banho ou na primeira lavada de mão. Uns até se embrulhavam num plástico durante a lavação para que perdurasse o tão almejado carimbo do Playcenter, era o sinal de que os corpos haviam sido abençoados, vida afora, pela marca da alegria.

A mãe do Toinho o deixara mais tarde na casa de Dona Justina, chegou com cara amarrada, de poucos amigos. A mãe havia revendido a passagem da excursão, porque a patroa serviria um jantar em homenagem ao prefeito de Santos, com quem tinham negociatas políticas.

Não havendo como dizer não, o jeito foi contenta-se em limpar a sujeira dos donos da praia. Era o mais próximo de Santos que podia chegar. A patroa riu quando ouviu o lamento da mãe de Toinho, que o filho ficaria muito triste por não poder ir ao passeio.  Foi quando ouviu da boca rica, pela primeira vez, a expressão “farofeiros”.  

Inconscientemente repetiu o desdém que ouvira da patroa para o filho, quando foi explicar que não iriam mais, aquilo não valia a pena, era coisa de “farofeiro”, outro dia iriam à praia de forma decente.

Sentado sob seu tamborete, desenxavido. Foi cutucado pela trupe, que queria transformar o mau-humor em brincadeira,  Toinho, sem reação as provocações, de repente, soltou um palavrão: “bando de pobres farofeiros”, não ia passar vergonha em lugar de gente rica.

Quim disse que se fosse homem,  xingasse de novo, Verinha o segurava, alertando-o da promessa que tinham feito, de nada adiantou. Toinho não retirou o que disse, e ainda por cima repetiu três vezes “farofeiros, farofeiros, farofeiros!” Dali um amontoado de meninos e meninas partiram numa disputa de matilha, o bando do Quinzinho contra o bando do Toinho. Só água para separar.

Dona Justina chegou chovendo.

Tratou os esfolados, remendou as roupinhas rasgadas, e revelou a Toinho que ela mesma o levaria para excursão, que já havia até pedido autorização a mãe dele. Ele desanuviou em alegria. Chegou no dia seguinte com um dadinho para cada, o doce apaziguara as desavenças e sem mais delongas seguiram com os planos para fazer o que melhor sabiam …

Domingo. O mar. Verinha não soltou a mão de Dona Justina, teve medo da imensidão e do barulho retumbante das ondas, que saíam lá do fundo, ferozes, e se desmanchavam mansinhas na beirada da praia. Entreolharam-se em olhos rasos, inundados.

Ninguém percebeu o que faziam, ali, paradas, de pés aterrados na areia mole. Mas a culpa toda do chuvisco fino que caía foi atribuída ao Toinho, que recebeu do Quim a pecha de pé frio e a incumbência de iniciar o pega-pega na areia.

Em meio a algazarra, chuva ou sol pouco importava. Diante do pulsar colorido de gente naquele cantinho da praia, nenhum mundo podia ser moinho na praia do Zé Menino.

Ouça “Farofeiros” na voz da autora:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

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