Álbum de fotografia

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Grafite – Bansky.

Texto publicado originalmente em 2 de maio de 2020.

Thata Alves –

Já deu medo de entrar pela maçaneta da porta, ela reluzia um dourado de 18 quilates, mas como fui convidada a entrar, reajustei a postura e angústia, entrei.
Os sapatos eram deixados na porta, então com os pés você acessava a mansão, meus pés pareciam acariciar as nuvens com tamanha maciez.
Me convidaram a guardar o sobretudo num cabide posto à esquerda, e a sentar-se no sofá para aguardar o jantar. Ao me sentar afundei na brandura com que ele me acolhia, sorri meio tímida ao afundar, mas consideraram divertido.
Ali risos e trocas como se fossemos da mesma classe social, percebi que eles embriagados, pois ricos não ficam bêbados, eram mais hilários que meus amigos da favela onde moro.
Por tamanho entretenimento as horas passaram rápido e com um sino também de ouro, foi anunciado que o jantar estava na mesa.
Os talheres eram de prata e eram tanto que eu sambava em tentar usá-los. O guardanapo posto pro colo, era mais aveludado que a toalha de rosto do banheiro de lá de casa.
Eu finjo que sei me relacionar com todos aqueles elementos, dos castiçais às taças de cristal para água. Água! a gente que sempre tomou água em copos de requeijão ecologicamente bem aproveitados.
Posto então, o cardápio da noite:
Couvert: terrine de foie gras de pato servida sobre tiras de brioche tostado, para beber na entrada Vinho Sauternes Château de Fargues, prato principal: magret (peito de pato) com ragu de lentilhas verdes de Puy, para beber pomerol Romanée-conti, sobremesa: mil-folhas de baunilha com um toque de bourbon. Tudo em doses homeopáticas, eu temia sair dali e ainda sentir fome, afinal sou de touro.
Eu não sabia agir naquele espaço, não sabia a hora que eu poderia me retirar da mesa, também não sabia se poderia repetir, eles os anfitriões, só bebem, licores e whiskies todos de fora.
E a bebida mais chique em casa era o champanhe brindando no ano novo.
O fim da ceia chega e eu me pego um pouco atordoada, não acompanhei o ritmo dos que bebiam ali.
Alice me convida para dormir e eu aceito o convite de bom grado, pois, se o sofá era tão macio, imagina cama…
Aceito sem hesitar muito.
Adentro no quarto de hóspedes e parecia o quarto das princesas de Wakanda, eu recebi um pijama de seda, e ao colocá-lo ele deslizava em meu corpo como se fosse feito sob medida para mim, a cama era redonda, do tamanho da sala lá de casa, que só é pequena porque o guarda-roupas divide o cômodo para que fique sendo nosso quarto. Tinha mosquiteiro na cama, como nos berços, mas era numa cama e aquilo parecia com impérios de realezas. Embriagada (como eles dizem) deitei-me, e, gente, travesseiros com penas de ganso existem!!!!
Dormi como a Cinderela até um terço da noite, na madrugada meu corpo estranha a cama e tudo aquilo que não me é acessado. Eu por amar as madrugadas para compor, peguei meu bloquinho de notas da bolsa, apontei o lápis e fui perquirir a casa.
Era tudo muito glamouroso ali, eu pisava com delicadeza no chão, medo de arranhar o mármore que brilhava tanto! Vi que no meu quarto, aliás no quarto de hóspedes havia banheira com sais minerais trazidos do Equador.
Nos corredores obras de grandes pintores contemporâneos como: Renata Felinto, Robinho Santana, Fernanda Theodoro, Targino e outros mais em molduras com lascas de ouro, devidamente eternizados.
Na cozinha as panelas brilhavam como estrelas, eram todas de prata, e apesar de lindas penduradas, eu sempre penso na mão preta que a faz lustrar…
Havia tudo nessa casa, sala de jantar, sala de estar, jardim com todas as rosas do mundo, a cada viagem a mãe de Alice trazia suas sementes, em minha casa as plantas que há são a espada de São Jorge sempre na porta, e comigo ninguém pode no mesmo vaso. Havia escritório, sala de bilhar, estúdio de músico pro irmão de Alice que era baixista, biblioteca, e foi na biblioteca que me deparo com uma surpresa.
Pra mim os cofres e tesouros sempre eram guardados em lugares secretos com chave de acesso e tudo mais. Mas eu acabara de encontrar o tesouro daquela família.
Fechei a porta para me certificar que estaria sozinha, e assim estando eu comecei a chorar com o achado.
Eu sabia que eles eram ricos, isso estava posto desde a maçaneta da porta quando eu acessei a casa, mas esse achado materializava a fortuna que a família tem.
Pego a escada embutida na estante da biblioteca e na penúltima prateleira lá está. É uma coleção de álbuns de fotografia!
O tesouro da família de Alice, estava todo armazenado e catalogado em prateleiras de álbuns de fotografias.
Uma tristeza me atravessa o peito em mensurar que, olha o tamanho das distinções. Eu historiadora que sou, não era justo que não tivesse tesouros assim para contar sobre minha família, eu tinha apenas álbuns “ganhos” filmes revelados aqueles álbuns que vem grátis da kodak, mas nunca fui mais longe de acessar meu avô paterno e algumas fotos de minhas tias numa roda de samba que faziam só com mulheres, e naquela época, hein.
Eu acho que me tornei historiadora por conta disso, assim eu empunhando o tinteiro, ninguém escreveria os meus como escravos, eu podendo fazer como tinteiro, punhava os ponteiros no lugar!
Pesquisaria tudo sobre minha raiz, e os eternizaria para então descansar em paz.
Olha só que ironia, descobri que a família de Alice era bilionária, devido a riqueza de um álbum de fotografias.

Ouça Álbum de fotografia na voz da autora.

2 comentários em “Álbum de fotografia

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