VIDA DE POBRE I

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fonte: https://www.globalframe.com.br/gf_base/empresas/MIGA/imagens/51C6E829EDE33CE9B79226E9FF02FF8AB273_onibus.png, acesso em 21ago20.

Texto publicado originalmente em 21 de agosto de 2020.

Carolina Tomoi-

Ela já estava acostumada à vida nos coletivos. Nascera e crescera aprendendo a dividir e usar nós no lugar de eu. E naquele momento vivia seu auge dos transportes urbanos. Levava uns quarenta minutos apenas, desde que saía de casa até chegar ao trabalho. Alguns quarteirões até o ponto, caminho que faria até de olhos fechados, pois já estava pelo bairro desde menina, desde os caminhos de terra e o mato em torno do rio, desde a pinguela de madeira que a traumatizara na primeira travessia. Atravessar o rio era atravessar municípios… o córrego que outrora protagonizava enchentes bimestrais inundava bairros de duas cidades.

No ponto, ônibus no contrafluxo, vazio, sem trânsito. Às vezes dava sorte e pegava uma linha que a deixava a dois quarteirões de seu trabalho. Quando dava azar, também dava sorte e adorava fazer uma caminhada de quinze minutos pelo bairro comercial. Aproveitava as promoções das farmácias e abastecia o banheiro da casa. Tinha a melhor esfiha do Capão que garantia o lanche baratinho, mas gostoso do outro dia para os filhos. Na loja ao lado do metrô tudo o que precisava para o lanche comunitário que fazia com os colegas de trabalho sempre às sextas-feiras. Um chinelo baratinho porque aquelas correias teimam em rebentar. Quando não, ainda cruzava com algum estudante e tinha companhia até o fim do caminho.

Se acostumara tanto com essa facilidade que às vezes abusava, resolvia limpar a casa antes do trabalho e quando se atentava da hora, já estava em cima. Mas sempre dava tempo, pois havia linhas alternativas. Graças ao bilhete único, pegava o primeiro ônibus que aparecesse, descia no ponto do cruzamento, atravessava no vácuo dos piscares dos semáforos em quatro fases, e no outro sentido já pegava um Santo Amaro que passava aos borbotões. Andava mais três pontos, saltava do lotação e subia pela ladeira mais íngreme, porém mais curta, que dava acesso à rua de paralelepípedos tão familiar.

O único incômodo era a noite, quando estava muito frio e o ônibus demorava. Geralmente pegava dois à noite, que era mais rápido. Em certas ocasiões tinha carona até metade do caminho, saltava sempre no ponto do cruzamento e pegava outro ônibus que a deixava lá pertinho da ponte, praticamente em casa. Sabia todos os horários dos ônibus de cor, todas as combinações que podia fazer. Sua mente era como o aplicativo de mobilidade projetava as combinações possíveis: “Se pegar essa linha, terei que andar até o ponto e esperar o semáforo faseado”, apesar de ser destemida, não arriscava atravessar o cruzamento no vácuo à noite, muitas vezes mesmo com o sinal aberto esperava os veículos pararem.

Certa noite, a pressa era tanta que não pode ir ao banheiro antes de correr para o ponto. Descendo a ladeira, percebera que fizera a escolha errada. Mas confiava em seus cálculos e, tendo poupado os três minutos de banheiro, conseguiria pegar um ônibus que a deixaria no ponto antes do cruzamento. Assim tomaria a única linha que a pouparia de caminhar e esperar o sinal faseado abrir. Terminou a ladeira e suas contas estavam certas, ainda subiu no ônibus parado no semáforo, o que lhe poupou mais alguns segundos até o ponto. Recalculando em seu GPS, concluiu que neste primeiro ônibus, ela deveria se posicionar em tal lugar que possibilitasse avistar a linha mais desejada e descer a tempo de entrar no coletivo que, conforme ela planejara, estaria bem atrás do seu. Como a ladeira do S torna qualquer veículo mais lento, ela teria o tempo perfeito de descer de um, dar o sinal e tomar seu ônibus predileto, sem esperar congelando no ponto e indo fazer xixi o quanto antes.

Mas vida de pobre não é tão fácil assim. Apesar de seu planejamento, esforço e sorte, até então, o predileto não viera. E a moça ficou a ladeira toda esticando o pescoço esperando avistar seu ônibus. Não viera. Então passou a recalcular o trajeto. Desceria após o cruzamento, como de costume, andaria alguns metros observando o sinal de pedestres piscar e ficar rubro, da raiva e decepção. Apertada na beira da calçada, depois atravessar e esperar na curva do vento gélido. De repente ao levantar a cabeça e avistou seu ônibus predileto, como num sonho ou pior, como num pesadelo, seu coletivo já estava no cruzamento, embasbacada observou a tão estimada linha subir a ladeira do S tão rápido quanto uma moto, o motorista ainda aproveitou o sinal verde e virou a esquina velozmente para longe de suas parcas e frustradas esperanças de não molhar a calcinha tentando encontrar a chave do cadeado. Concluíra que precisaria de um bom banho quente antes de dormir.

Ouça ” Vida de pobre I: Coletivos” na voz da autora.

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