DOLCE VITA

Bar do Seu Miguel

Texto publicado originalmente em 05 de julho de 2020

Arlete Mendes-

Ouço tanto falar de empreendedorismo, palavra muitas vezes utilizada para escamotear relações trabalhistas precarizadas, tem gente que baba tanto nesse termo como se fosse o ovo de Colombo. Besteira! Quer mais empreendedorismo que nossos ancestrais? Cavavam trilhas e caminhos no meio da mata para interligar paisagens, aldeias e os parentes. O grande caminho, além fronteira, extra terra brasilis, era o caminho sagrado por onde se aprendia a ser gente, a ser vento, a ser tempo. Peabiru.

Quando nosso caminho teve um paradeiro, aportamos quase numa esquina de uma várzea enlamaçada, a poucos metros de um afluente do rio Pinheiros, o Rio Pirajussara. Vagarosamente as tímidas construções nasciam com muito custo, erguidas pelo esforço individual e coletivo, permaneciam por muito tempo peladas, com as vergonhas de fora. Ainda que humildes, representavam nossa mais alta conquista.

Foram longos anos, até que um dia o progresso deu as caras, o tão esperado asfalto surgiu. Eu tinha medo dos tratores e horror ao cheiro de piche. Minha única alegria diante daquele revolver infindo era a argila que agora beirava meu portão.

Fazia bichos, potes e panelas, mas a argila da borda findou e minha valente irmã se predispôs descer até a escavação para buscar mais do barro, com o qual eu moldaria meu novo mundo. Ainda que tivesse desistido da brincadeira e a tivesse alertado com um ‘a mãe vai te matar’, nada disto a desmotivava. Só não esperávamos pelo flagra tão eficaz de minha mãe. Na afobação ela perdeu as havaianas no atoleiro e levou uma surra memorável.

É isto que se ganha com o progresso. Chorei amaldiçoando os tratores, escavadeiras e a minha falta de coragem, ela entrara na escavação para pegar argila para mim, porque eu, como de costume, havia visto naquela vala, um abismo sem fim. Mãe não quis saber das minhas lamúrias. Criança malina é na base da peia!

Para mim o mundo era nosso quintal, sair dos muros da minha casa, nem pensar! Além disso, o lado de fora me gerava aflição, as vielas, o escadão e a esquina da padaria que tinha sempre um morto. Tudo naquele lugar me incitava o medo, com exceção de uma casa, que também era um empreendimento: o bar do seu Miguel… Era o lugar mais vivo e colorido do bairro, os amontoados de gente,  as garrafas enfileiradas vazias, mas cheias de risos altos, os vibrantes estalidos do bilhar, eram bonitos de ver e ouvir. Sabia também que morava ali um relicário, guardado por um móvel sóbrio de madeira, sedutoramente envidraçado, depositário do tesouro mais cobiçado pela criançada da vila: os doces!

Sentávamos na calçada quando a mãe estava de bom humor, e o assunto desembocava em quantos doces da vidraça a gente já havia comido.  Minha irmã, muita astuta com dinheiro, sempre achava um jeito de ganhar trocados, por vezes, embolsava algumas moedas quando a mãe lhe pedia alguma compra. Ela fazia as compras mais longes, eu só a de frente de casa. Minha mãe sabia como eu era impressionada, tinha muitos pesadelos, já minha irmã nascera com uma esperteza nos olhos, que parecia já terem visto de tudo. E ela se vangloriava por ter experimentado quase de tudo, contando-nos a cor, o gosto e a textura, para que nós, reles mortais, conhecêssemos por suas heroicas narrativas o saboroso néctar dos deuses.

Ela tinha um gosto peculiar. “Abre a boca e fecha os olhos”. Eu abri.  “Sabe o que você está comendo? Teta de nega!” Cuspi de imediato. Apesar de eu ter três anos a mais que ela, era muito ingênua, imaginar comendo parte que fosse de um ser humano, me repugnava. Não gostava de pé de moleque e olho-de-sogra pelo mesmo incidente linguístico. Como eu era a negra da casa, achava injusto alguém comer algo que fizesse alguma menção a mim.  Adulta. Minhas intuições sobre o nome do doce se confirmavam, tratava-se de um clássico caso de onomástica racista.  Estranho, dá nome aos doces dessa forma, como se comer gente fosse algo natural e saboroso. Antropofagias invertidas. Talvez dadas por um tipo esquisito de brasileiro, o senhor, adulto, branco que para mostrar seu grande poderio e dar lições aos meninos espevitados e às negras atrevidas, que aqui chegavam com suas tetas à mostra, já que em suas culturas não havia nada do que se envergonhar (a mama era sagrada e motivo de orgulho), e aproveitavam para lhes açoitar também com esses nomes.

Cuidemos dos doces da ‘vitrine’, sempre ao meio-dia minha mãe pedia para comprar Ki-suco, em épocas de bonança, Tubaína, que era mil vezes melhor. Como eu fazia as compras no bar do seu Miguel, sabia de toda movimentação de doces, tornei-me, sem que ele nunca soubesse, sua subgerente, do departamento de doces, claro, e às vezes o avisava, “A bananinha está acabando”.  O doce de banana no potinho de casca comestível era o meu predileto, foi quando ele disse: “Amanhã cedo chega o caminhão de doce.”

Eu sabia que aquilo era valioso e vinha num caminhão secretamente cerrado, verde, quase um forte, naquele dia acordei mais cedo e fiquei plantada do lado de dentro do portão, observando a movimentação das caixas. Sim, fazia meu papel de gerenciamento. Foi quando vi o garoto da bala Juquinha, ele ajudava o pai levando os doces para dentro do bar, tinha os cabelos amarelos, bem penteado e partido de lado.

Primeiramente senti uma inveja danada do garoto da bala Juquinha. Como assim todo aquele tesouro na mão de uma única criança? Depois passei a admirá-lo, era muito ágil, arrumava tão faceiro os doces na vitrine. Seu Miguel abria sorrisos e dizia algum benfazejo, os dois riam juntos, eu, do outro lado da rua, tentando desvendar o que diziam, me coçava de curiosidade, só podia imaginar que contavam histórias sobre doces. Seu Miguel nunca dizia anedotas para mim, sempre sério com sua mais fiel funcionária, mas para o garoto Juquinha era só sorrisos. Também pudera, era dono de todos aqueles doces. E assim meu amor por doces se transmutou para figura rósea e amarela do garoto Juquinha. Dava-lhe um adeus secreto quando o caminhão dobrava a esquina.

Eis que naquela manhã ela, sagaz, me encurralou, me perguntou o que fazia lá fora, logo eu que odiava levantar cedo. Confidencie-me para minha irmã, que ficou de butuca comigo e quando viu o caminhão… “Credo, o menino é transparente, nega, não serve não, e não tem cara do Garoto Juca, parece mais o menino do Dipnlik.” Daí mostrei o tanto de doces e como ele fazia o seu Miguel sorrir. Outro balde d’água fria. “Claro, que seu Miguel tem que tratar bem, eles são os donos do doce, fazem negócio, e o menino está aprendendo a ser negociante com o pai. Olha, acho que eles nem são os donos, quer vê, vou perguntar…”

Não, não… Era muito audaciosa, quem a impediria? Esperou o caminhão verde dobrar a esquina e perguntou ao seu Miguel. Ele riu, suspeitei que seu Miguel gostasse mais de gente branca.  Ela chegou ao portão fazendo muganga para mim, como sempre.“Eles só entregam, sua besta!” Mas que o garoto Juquinha, quando descia do caminhão, deixava um lastro de cheiro cor de rosa, ah, isto ela não podia negar!

Desencantei-me do garoto Juca, mas continuei gerenciando os doces, e agora ainda mais feliz, pois ganháramos um laço parental com o bar, meu tio se casara com a bela Ilda, filha mais velha do seu Miguel, era tão carinhosa conosco e por ela ser assim achei que seu pai passaria a me dar uma balinha de graça a cada compra. Ah, doce ilusão. Ficou menos sisudo, isto sim.  Mas se fôssemos chamar minha tia, que tínhamos de ir pelo outro portão, nada de criança passando pela porta do bar!

Gostava de impor limites, seu Miguel. Era muito respeitado. Todos daquela rua deviam favor a ele, era o único que tinha carro, e naquela época nem SAMU, nem pedido de socorro existia para nossa gente, se não fosse a boa vontade e os fortes vínculos de amizade na vizinhança muitos de nós não teríamos vingado. Minha mãe fazia questão de nos lembrar do dia em que ele me socorreu de madrugada e nos deixou no Hospital das Clínicas, se não fosse por ele não teria escapado da meningite.

Num meio-dia, de Ki-suco na mão, seu Miguel me vendo paralisada diante do baleiro que organizava: “Está certo, não tem troco.” Hipnotizada pelo giro caleidoscópio do baleiro e por aquele cheiro de bala de leite Kids que recendia o bar inteiro e me fazia transcender, nem sequer me incomodava com a inhaca da cachaça que era o cheiro predominante na segunda-feira, não o ouvi. Foi quando ele gentilmente me deu três balas Juquinha. “Uma pra cada. Vá logo que sua mãe vai brigar!” Dai entendi porque meu pai gostava tanto daquele careca mal-humorado.

Ainda hesitei… Devia fazer que nem ela e comer tudo antes de entrar? Virei os olhos para o bar e vi aquele homem tão bondoso e carrancudo, não tive coragem, ainda deixei que minhas irmãs escolhessem os sabores, guardei a minha para depois do almoço, que é quando meu verme de doce fica mais assanhado.

Muitos anos depois, naquele dia amargo de sua dolorosa partida em direção ao “Apecatu Ava-porã”, derramei muito choro por mim, por minha tia, por meus priminhos, que tiveram seu melhor exemplo de pai na figura daquele homem. Hoje quando tenho a sorte de achar uma bala Juquinha, não é o garotinho que me vem à lembrança, mas aquele careca invocado.

*Peabiru: rota antiga indígena

*“Apecatu Ava-porã”:  O Caminho do Homem Sagrado.

Ouça “Dolce vita?” na voz da autora:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

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