ÁGUAS

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é janeiro2007-110.jpg

Texto publicado originalmente em 5 de setembro de 2020

Ana Karina Manson-

O mesmo caminho que havia feito há vinte anos.

Era o aniversário dele e como o destino encontra maneiras inusitadas de vencer o tempo e fazer um encontro entre passado e presente, ela estava lá no lugar onde se conheceram, onde caminharam tantas vezes enamorados, apaixonados. Acreditavam que a vida inteira estava naquele momento. E estava.

Hoje, enquanto ela caminhava de mãos soltas pensava em quanto está ainda enlaçada a ele, mesmo tão distante e tão longe.

Como era seu aniversário (o que ela nunca esqueceu, jamais esqueceria) já acordou e se dispôs a ouvir Caetano, o que ele cantava para ela em outros tempos. Era como se um vento pudesse soprar e levar para ele a sensação de que ela se lembrava dele, homenageava-o, desejava felicidades.

Mas não desejava felicidades como costumeiramente se faz quando há aniversários. Desejava, na verdade, a felicidade que viveram em outro tempo. A felicidade do encontro, da poesia, da arte, do vinho, da música, do cinema e, sobretudo, de suas almas e de seus corpos.

Talvez tenham passado juntos as tardes mais felizes de suas vidas. Mas naquele tempo não sabiam. Não se sabiam. Apenas viviam por isso foram tão felizes.

Em seus encontros, casuais ou não, falavam de poesia de modo que perdiam a noção do quanto ela estava fora e dentro deles. Viviam-na.

Por quantas vezes seus corpos se enlaçaram como numa rima perfeita. O entrelaçado de suas pernas, que prazerosamente viam no espelho. Espelhava o amor.

O encontro de seus corpos era a mais bela construção poética que se poderia imaginar. Era música que se dança, escuta-se, bebe-se, vive-se.

Por quantas vezes os beijos em suas costas eram como tatuar um caminho ao qual nunca deixaria de trilhar. Era o para sempre.

Era sim, essa felicidade que desejava.  A felicidade que não é sabida a não ser quando já não é mais, quando é nostalgia.

Naquele tempo o encontro era como a cachoeira que invade o rio com sua intensidade, sua força, sua certeza, sua busca e depois deslizam juntos por caminhos diversos. Ora serpenteados, ora como raios de sol. Rios.

Houve uma vez em que ele dissera a ela que ele era como a cachoeira e ela, rio. Chegou a desenhar num desses guardanapos de lanchonete. Chegariam ao mesmo lugar, mas enquanto ela deslizaria no caminho que a água traçara, vivendo cada encontro com as pedras do trajeto; ele, num raio, chegaria ao final.

Quando viu o desenho ela concordou não só com a explicação dele, mas com a interpretação dela. Ele era mesmo a cachoeira que alimentava suas águas. Fazia enchente em seu rio.

Porém, ao lembrar dele, agora em seu aniversário, pensava em como ela – rio – não conseguia se imaginar cachoeira. Seria pouco chegar ao final sem passar por cada pedra, cada galho, cada folha a flutuar. Tudo isso a compusera ao longo desses anos.

E neste momento notou que já não havia o encontro das águas. O passado e o presente eram como águas do mar e do rio que se tocam. Encontram-se, mas não se misturam. Era assim que ele estava hoje em sua vida. E as águas seguiam seu curso. Ela era mar.

Ouça “Águas” na voz da autora:

2 comentários em “ÁGUAS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: