CHUVA NA PANDEMIA

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Texto publicado originalmente em 04 de outubro de 2020

Shirlei do Carmo-

Olhei os pingos da chuva escorrendo no vidro da janela do quarto, enquanto lembrava das gotas de suor que banharam nossos corpos, num dia como esse, em  que fechei a janela e as rachaduras no teto se misturaram no emaranhado dos lençóis de algodão e emolduraram as asas do corpo.

Por instantes quis beber essa imagem, sem rosto, como aquele personagem de um romance que amei e odiei, enquanto virava noites em claro devorando as palavras e relia duas vezes o penúltimo capítulo para burlar o fim.

Os vinhos que acompanharam os meses, em companhia do silêncio, também releram capítulos nessa espera pela vacina.

Tenho pensado muito na saudade,  desejo do não vivido, e essa é a mais forte, como naquele dia que atravessei a cidade de ônibus, para contemplar a florada das cerejeiras, e de repente esfriou e choveu, nem deu tempo de caminhar entre elas. As cerejeiras dessa quarentena me visitaram em agosto, plantaram no  pensamento os desvios em vermelho desse alerta sem folego, enquanto telas me engoliam, e no silêncio das noites digeri essa vontade sem nome de viver o não dito, entre taças, e o perfume de lavanda com jasmim.

Faz tempo que não me apaixono por alguém, talvez o coração pulse cabreiro, feito o canto do meu olho em alerta, mas quando chove uma sensação blues lava minhas carnes, e deixa exposto aquele cheiro de terra molhada, com as copas das árvores em verdes brilhantes, numa tristeza doce que ressalta  veias na pele, e a pulsação aparente entoa Nina Simone, nostalgia de céu estrelado em noites de lua nova.

Descortina esse existir corpo instinto, e utopias, nas vontades de desobedecer a leis da física e colocar dois corpos num mesmo espaço, íntimo, e as outras  de ocupar praças com as idades relembrando as infâncias e saias rodando no vento.

Os amores em território, dessas mãos simbólicas que entrelaçamos formou ciranda nos meus poros, intuição coletiva para fazer travessias, e alimenta outro espaço de querença, dessas corajosas que suportam o estio.

Esse ano choveu pouco, sobrevivi bastante tempo entre  louças na pia,  algoritmos e pastas de documentos, sem o gosto da paixão, anestesiada no cansaço. Alimentada em doses intercaladas  de diálogos emoldurados em telas, e poesias escritas com redes de mulheres que me formam, nesse corpo comunitário, de corações sobreviventes.

Quando a chuva  rega a memória,  a saudade pega gosto nessa prosa sem aviso, e canta esses desejos unos, múltiplos, férteis.

Ouça Chuva na pandemiana voz da autora:

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