Anti-romântica

Ilustração por Desobediência Visual.

Por Raíssa Padial Corso

Não pretendo ao amor romântico.

Não o quero, não o aguento como venda na face, não o anteno com o seu julgar de fatos, o amor romântico rompeu as pernas de Tereza, a fez voltar a boiar nas águas.

Ele me embriaga de roteiros, intensas utopias, patronalismos, mar- idos, vindos, dicotomias, por presentes, por barganhas, ele supuxa os nervos do corpo que pedem, que clamam, piedades as louças infinitas, piedades aos frangos e seus temperos de abutre, putrefatos, fatos que não vingaram, manifestações que não defenderam o amor dos coronelismos espelhados e espalhados aos montes pelos intreriores, de mins, de sins, o amor romântico roubou a possibilidade de domingos serem apenas domingos, de espelhos e suas inibições, portais de solidões.

Margaridas hão de auxiliar nas feridas, visões flamingas hão de ponderar o foco do olhar, pois a mutação de um se esbarrar, se encostar não seduz a pele que grita calafrios, a mente que defende teorias. A pele exige a hidratação de um néctar de agora, corporal, matinal, abissal.

Haverá tratados para corações despertos, cartas de sinceridades escritas na cabeça, mas que indagações já comunicam, precipitam, alfinetam, um corpo já desmedido, apenas no êxtase do minuto presente, o meu desejo se encontra no libertário contínuo, no olho dialógico.

Há uivos urbanos no agora, são minhas amigas cadelas rezando.

Nos escadões que ascendem a pineal esférica, o mistério órfico.

Por favor no seu tempo, no seu sincopado momento, escreva a linguagem do antes, no braile da minha nuca, cante o agora que trás respiro, louve o antes e todos os seus trajetos, porém queime a ponte que flutua até lá.

O ar é um tapete voador, quando passa: inspira, caminha, expira.

Que nos reste, caixas de bom bom, licores amanhecidos, e taças que sempre quebram.

Que nos reste continuamente a louvação de mulheres, que presenteiam outras mulheres com batons vermelhos.

As rosas murcharam, e todas as formigas da casa caminham para o suicídio, no resto do nosso champanhe.

Ouça ” Anti-romântica” na voz da autora.

Música ao fundo, compilado de Mercedes Sosa.

5 comentários em “Anti-romântica

  1. Já adorei desde o título! Que texto-grito- louvor!!! Quantas coisas a desconstruir e muito a construir com a força das mulheres. Quantas violências vestidas de romantismo precisam ser destruídas e uma nova forma verdadeira de amor(es) precisa nascer e sobreviver. Gratidão pelo texto!

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  2. Apenas li, não ouvi o audio dessa vez. Na minha leitura o folego ficou ofegante e ainda que o texto tem pedidos de parada e respiro, li como alguém que ouvia uma resenha urgente e certeira, sem tempo pra esperar o tempo. Agradeço Raíssa.

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