DAMIANA

(Foto: Sheila Signário // Acervo – Biblioteca Comunitária Djeanne Firmino)

Texto originalmente publicado em 25 de outubro de 2020.

Mara Esteves-

Damiana era exímia em roubar frutas do pé. 

Pulava muros, cercas e trepava em galhos finos. Enfrentava sem medo todos os obstáculos em sua frente, mesmo que para isso fosse preciso fazer malabares no ponto mais alto da copa de uma árvore, se equilibrando e segurando com uma mão um dos galhos para não cair, e na outra, uma vara de bambu para alcançar seu cobiçado prêmio: o fruto mais vistoso do topo da frondosa árvore.

Percorria todos os terrenos baldios da Vila de Taboa. Aquele chão desnivelado, repleto de mato e entulho, escondia na simplicidade do abandono, micro-universos a serem descobertos e reinventados pela curiosidade e sabedoria da pequena Damiana. Liderava as expedições. Ia sempre na frente, abrindo caminhos. Encontrava sempre pequenos tesouros com o seu olhar atento às coisas miúdas.

Sua mãe vez ou outra, alertava dos perigos de suas estripulias, cansou de tentar persuadir Damiana para que se contentasse em brincar de boneca, casinha ou escola. Não que ela não goste de brincar dessas coisas, só sentia que precisava imaginar e criar outras formas de experimentar toda a potência de vida que habitava em seu corpo.  

Sua mãe vendo sua filha crescer em alegria, era cúmplice de sua liberdade.

Damiana acreditava que brincando podemos ser tudo. Mãe e professora de suas bonecas na parte da manhã e à tarde, uma geógrafa, engenheira ou bióloga à explorar a vida. E lá no fim da noite, uma astronauta desbravando seu universo particular.

Ela não era a única menina que pensava assim, mas era uma delas.

Nas férias de verão, seu irmão Geraldo junto com outros meninos, corriam de oficina em oficina, atrás de rolimãs usadas. Juntavam restos de madeira, pregos e corriam atrás de algum adulto para ajudar.  Damiana, com sua persistência, conseguiu convencer seu irmão a construir um carrinho de rolimã só para ela. Tanto ela como ele, já estavam cansados de ter Damiana sempre na garupa. 

Descia a ladeira sem capotar ou tombar de lado. Nas corridas, os únicos acidentes foram causados pelas fechadas provocadas pelos meninos, que ainda não se sentiam seguros em competir com uma menina que não brinca só de casinha.

Nos dias de muito calor, os meninos subiam e desciam as ruas do bairro de shorts e sem camisa. Peito nu ao vento. 

Damiana não via nenhuma diferença entre os corpos das crianças para impedir que as meninas também saíssem sem camisa. Sabia que em breve as diferenças iriam surgir com o fim da infância e que por isso, seria um desperdício não aproveitar aquele momento.

Em um dia de sol escaldante, ao ver todos os meninos curtindo a brisa do vento em seus corpos seminus, Damiana, pingando suor ao brincar de pega-bandeira, tirou sua camiseta e atirou à calçada.

O jogo parou. Todos olharam para Damiana.

Damiana não suportando aquele silêncio e olhares surpresos e gritou:

Se as meninas podem subir em árvore, pular muro e andar de carrinho de rolimã, como qualquer garoto faz ou até melhor. Por que não podemos ficar sem camiseta na rua, hein?

O silêncio se refez. Uma a uma, cercadas por olhares e sorrisos de encorajamento, as meninas foram tirando suas camisetas.

 E todos, em pé de igualdade, voltaram a brincar.

Ouça “Damiana” na voz da autora.

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