BANHO DE MAR

foto: Celane Tomaz

Texto publicado originalmente em 15 de maio de 2020.

Celane Tomaz-

Era uma tarde de outono quando decidiu expor sua raiz. O céu já estava  assimétrico, retocado e abstrato em azul- lilás e alaranjado ardente. Assim  também seu corpo – folha seca, porém intacta, resistindo a varredura do caos.

Talvez sua pele pálida precisasse de dias mais intensos de sol, mas tinha em si uma preferência contestável por banhos de mar na estação da queda.

Todas as idas à praia carregavam uma experiência única e uma certeza de renovação inexplicável. Era como se o mar fosse uma extensão da sua existência bela, temível e desconhecida.

Logo retirou as sandálias dos pés para sentir a areia. Repentinamente perdia suas agonias ao se afundar naquele solo instável e infértil. Estava nua. E um tanto  de prazer a tomava.

Respirava afogada num tanto de vida que sufocava seus poros. Incompreendida, mas convencidamente estava viva.

Já longe do sol do meio-dia, as vozes se despediam e os risos se dispersavam no ar. O vento abraçava o silêncio. O excesso de pensar era como as ondas condenadas à secura do solo e à rigidez das rochas. E sentir era como os efêmeros desenhos e esculturas que a água insinuava na areia. Se revelavam, e depois sumiam.

As espumas, seus dilemas. Tinham forma e som, e lá também estavam, puras e brancas. Se desmanchavam, mas logo ressurgiam, ornando a solidez de seus pés.

Envolta por toda a paisagem-espelho, observou atentamente como as ondas cresciam e se lançavam destemidas, mesmo sabendo do seu fim e percebeu que na quebra também estava a sua beleza.

Seu reflexo na água era disforme, mas mesmo assim, sem saber da profundeza, a admirava.

Sentiu o tempo sendo contado em outro tempo. Talvez a eternidade habitasse naquele intervalo entre o esvaziar de uma onda a outra. E a outra vida nascesse subitamente como aquelas pequenas e sorrateiras ondinhas já na superfície da areia. Aquelas que eram imperceptíveis e não despertavam medo algum, mas que arrastavam a sujeira, traziam à tona as conchas vazias e revelavam a delicadeza do mar.

Pensou na sensatez e no equilíbrio do horizonte que sempre se mantinha intocável e virtuoso. Tanto acontecia entre essa tal linha que contornava seus limites. Pensou e imaginou os peixes que não via e nas suas consciências como cardumes.

As pedras. Era preciso cautela ao pisar em algumas, se manter firme diante de alguns deslizes e arriscar-se nelas para alcançar o mar.

De toda e qualquer forma, queria o beijo do deslumbre salgado, desejava as rachaduras nos lábios e o sentir do gosto ressecado e exagerado cobrindo sua boca. Queria os olhos ardendo, e todo o seu corpo leve como pluma, sendo conduzido para fundos e superfícies, um corpo manipulável e versátil somente pela astúcia do mar.

Permitiu-se ao mergulho e sentiu no impacto das matérias – corpo e mar, corpo-mar – o seu peso solto.

Após emergir, deitada sobre o embalo das águas e no seu escorrer na unicidade formada pelos azuis de céu e mar, de olhos fechados, pernas e braços abertos, indagou-se sobre o que de fato a sustentava. Naquele instante, estava entregue àquela imensidão.

O sol lento perceptivelmente se escondia atrás das montanhas. Logo o frio a deixaria trêmula e o breu da noite tudo apagaria.

Entendeu que era natureza. E também sobrevivia vislumbrável e incompreendida entre a beleza, os mistérios e as sutilezas. Entendeu que era feita de astúcia, bravura, inconstância e profundezas, e que seu corpo-mulher também era grandeza indomável. Entendeu que só se alcançava pelos seus sentidos e se estivesse atenta à escuta da sua própria voz, como estava soluta ao som do mar.

Ouça “Banho de mar” na voz da autora:

3 comentários em “BANHO DE MAR

    1. Eli, você desde sempre tão generosa comigo. Tenho em mim imensa gratidão por tê-la por perto há tanto tempo.

      Muito grata pela sua leitura!
      Amo-te.

      Curtir

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