BANHO DE CANEQUINHA

Demóstenes Dumont Vargas, 2015.

Texto originalmente publicado em 3 de agosto de 2020.

Carolina Tomoi-

Abaixo para encher a canequinha, vejo vaporzinho subindo do balde de água cristalina. Sinto a água morna escorrendo pelos ombros, afago quentinho e único enquanto o resto do corpo sente os arrepios com o frio ambiente. Quero mais e repito a operação duas três vezes, até que todo corpo se aqueça.

Me toma aquele cheiro de saudades. Inúmeros os banhos de canequinha na infância. Não só para economizar o último suspiro do precioso líquido -como agora: em pleno século XXI, na megalópole brasileira, bairros inteiros sem água encanada; coleta e tratamento de esgoto, nem nos condomínios de luxo!- Naquele tempo, também quando faltava luz ou quando só tínhamos água no poço mesmo, a solução era o banho de canequinha. A saudade não é do banho em si, que mais esfria que esquenta, que parece que deixa o sabão, que não dá pra lavar os cabelos direito.

Saudade é delas.

Mãe, vó e tia. Elas que preparavam nossos banhos nessas ocasiões de escassez ou necessidade. Era o cuidado com o balde, tinha que estar bem limpinho… e a água no fogão, naquele caneco bem areadinho, brilhando qual espelho de parque de diversões que entortam nossa cara e fazem caretas na gente mesmo sem querer. A temperatura da água era importante, para não pelar as crianças ou não gelar antes de o banho terminar. A toalha com cheirinho bom, roupinha puída mas limpinha e bem passada, a água fria do balde içada do poço a espera do caneco borbulhante para temperar.

Na minha rua tinha uma única vizinha que tinha poço, nas épocas de racionamento de água, que geralmente duravam uns doze meses nas áreas de várzea do Pirajuçara, a vizinhança fazia fila com baldes e vasilhas para puxar água do poço da Dona Áurea, até seu nome era de salvadora da nossa pátria-rua. Nós éramos bem próximas, minha mãe havia ganhado sua confiança e empatia e, levantava mais cedo do que imaginávamos para abastecer nossa casa antes da fila que ia fazendo em frente às casas vizinhas. Era tudo combinado com D. Áurea.

Lembro do gesto da mão dela, enchendo o canequinho de água e despejando, banhando suas crianças. Limpando, lavando, tirando delas todo mal que só a água e o amor podem extrair com um banho. Às vezes o banho era em dupla, pois assim poupava gás, água e trabalho, como uma linha de produção em série. Mas em vez de usarmos pouco sabonete, esfregávamos mais ainda na barriga e nas pernas, deixando a pele branca e o sabão vermelho da terra dos nossos corpos. Com paciência, minha mãe fazia graça, jogava água de um lado para outro, na cabeça, na cara. Nós ríamos alto, felizes.

Conhecedora de desafios maiores que transportar alguns baldes d’água, quando pequena, ela conhecera de perto as dificuldades de se conseguir ouro líquido e cristalino. Junto à sua mãe e irmãs carregara bacias de louças e roupas que lavavam na beira do rio. Nada de cenas bucólicas pintadas a óleo com lavadeiras vestidas de branco e felizes entoando cantigas a lavar roupas ao sol.

Esfregar panelas borradas do carvão da cozinha a lenha e da banha de porco, esfregá-las com areia fina do rio até ferir as falanges, assim compondo magníficos espelhos tridimensionais, apenas até o próximo preparo. Esfregar também as roupas brancas em águas lamacentas e enxaguá-las repetidas vezes, até ficarem novamente brancas para serem habitadas por corpos que as maculariam imediatamente após seu toque. Para só então, esfregar a própria pele, de inverno a verão, no fio d’água gélido e disponível nas proximidades da casa. Voltar pelo trieiro enlameado equilibrando bacias de louça e roupas lavadas.

A vida segue seu (per)curso, os rios correm para o mar recompondo as memórias das mulheres que me banharam, carinhosamente, que escorrem como a água que agora me enxágua, já quase fria. Reencontro as que me acalentaram desde criança, me alimentaram de afetos e pulsares, sopraram minhas primeiras feridas, desbravaram caminhos. Outras chegaram depois, secaram minhas lágrimas e sorriram meus sorrisos.

Todas afluentes de um mar maior.

Confluo-me a este curso pelo sangue e pela história desse sobrenome tão feminino. O nome delas. Uma linhagem de matriarcas fortes e marcantes formando as espirais que como mola impulsionam nossos ciclos de transformação. Conceição concebendo a si e a quem se arredora e ao mesmo tempo Maria, a senhora que cria, soberana e geradora, reinventando a tudo, sempre. Como rio que corre e nunca é o mesmo.

Findo o banho, enrolo-me na toalha e sei que por onde piso e por onde escorro: Com-ceição-sou.

Ouça “Banho de canequinha” na voz da autora.

2 comentários em “BANHO DE CANEQUINHA

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