Ser-tão

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Gilvan Samico: Criação das Sereias

Texto publicado originalmente em 3 de junho de 2020.

Arlete Mendes-

Já disse, não sou paulista. Não adianta jogar mais essa carga em mim. Nunca fui, nunca serei. Os registros? Sim. Mas nem todo fato é um fato inteiro. Explico-lhe. São Paulo é um acidente em minha vida, assim como um dedo mindinho aleijado, os dentes que faltam em minha boca, os amores perdidos, os amores encontrados, meus filhos…

Nascer não é um fato isolado, é um contínuo, a gente nasce e morre ao longo da vida. Eu nasci muito antes de vir ao mundo. De repente uma moça grávida, um casamento às pressas, sobreviver em outro estado, um ser sem sertão…

Eu nasci primeiro da solidão de minha mãe, numa terra de muito sol, que faltava o pirão, faltava água, faltava futuro, mas não faltava calor. Nasci antes de nascer, e como já pensei em ter nascido demorei mais tempo para vir ao mundo.

Não crê? Não me venha com essa, contra fatos há muitos argumentos. Quando cheguei? De repente. Mãe sozinha, numa casinha de um compartimento, sem nenhum dos seus. Dei trabalho.  Enfermeiras mandaram chamar as freiras, rezas e rosários em cima da barriga dela. Rompi. Foi minha primeira morte.  Quase sem vida, roxa, imóvel. Espremeram de mim um resvalo de suspiro. Não olhei com curiosidade para esta terra. 

Pouco calor para me aquecer.  O poço era distante, muita roupa para lavar.

Menina que nasceu quieta, fica quieta para mãe trabalhar.

Como não tinha o calor, minhas mãos sempre em gelo eram esquentadas com água amornada. Um saco plástico entre os cobertores para o frio suportar.

Menina da terra do sol, se aquece nos panos que a mãe vai trabalhar.

Garoa fina e saudade fizeram mãe chover.  Para não se desfazer em rio, pegou as trouxas e eu, voltamos para os nossos.  Não levou muito tempo pai veio nos buscar, chorei dizendo adeus pelo vidro embaçado do ônibus. Três dias dizendo adeus, adeus aos meus. Ecoando em rotação e translação entre sol e chuva, cidade e sertão…  Adeus… Adeus… Adeus….

Foram longos anos de solidão, quase sem em quem pudessem confiar. Nesta terra de ninguém, morria-se um porque deu bom dia e outro porque não. Custaram longos anos até que pudéssemos pisar sem tanto medo nessa terra vermelha, vermelha de tanto sangue nosso derrubado.  Custei a entender…

Menina sai do porta, teu amigo é pai, mãe e irmão.

Ah, sim, estudei. Mas os pisões nos pés dos meninos que riam das minhas havaianas, do meu sotaque, da minha pele de sol, dos meus cabelos de macambira, isto não consta no histórico escolar.

Se esta terra acha que me tem, está enganada, eu nunca a tive, tenho amigos, quase que conto todos nos dedos das mãos. Amores?  Se foram em dores. Aqui morri muito mais do que nasci. Morri 55 vezes. Nasci somente cinco.

Sou filha de outra terra, sou filha do sertão, onde posso ser, ser-tão… Lá eu sou.  Céu. Sol. Pássaro Amarelo. Nuvem azul. O caju e a cajuína, Juazeiro e Petrolina. E o velho Chico mora no meio, bem no meio de mim.

Não sou digna desse chão, ele me diz isto todos os dias em muitos nãos.

Vai –te embora filha do vento, vai-te embora e leva teu azul!

Tenho uma arenga com ele, me deixou com a pele escamosa, o olho anuviado e o coração sempre acelerado.

Sou ingrata, não. Só não me chame de paulista, porque não nasci aqui. Nasci no meio. Entre  vida e morte, entre cidade e sertão.  Sou meio, meada, mestiça, multidão…

Ouça “Ser-tão” na voz da autora:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

4 comentários em “Ser-tão

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