MULHER SÁBIA

Arte: Luiz Ricardo Faleiro

Texto publicado originalmente em 26 de junho de 2020

Jesuana Sampaio-

Tenho memórias de mim tão bonitas que superam todas as que foram dolorosas. Deve ser teimosia cearense. Estes dias estava lembrando que mais ou menos com 17 anos eu dizia que era bruxa e sabia mover os ventos.

Eu não entendia porque entre tantos poderes o meu escolhido envolvia o vento, em porque dizer que eu era bruxa era uma verdade dentro de mim. Talvez porque, mesmo sendo católica, na época, eu não perdoava todo mal que a igreja cometeu às mulheres, às bruxas e nem a nossa e tantas outras terras invadidas, saqueadas, estupradas e doutrinadas.

Uma vez perguntei a um amigo Pitaguary  se ele aceitara o pedido de perdão da igreja católica e ele me disse:

– Não nessa vida.

Entrei em processo de retirada do rótulo de ter religião, minhas dúvidas eram gigantes demais para esbarrar em dogmas e silenciar.

Foi ainda em uma vivência católica que participei do meu primeiro ritual de bruxaria, as margens do rio negro em Manaus, mulheres e homens passaram a saber das mulheres sábias do passado e as de todos os tempos.

A mim, fora dada uma parte muito difícil do ritual, todas eram, na verdade.

Li com o corpo todo em arrepio e os olhos em prantos, um trecho da inquisição. Eu sentia no profundo da minha alma a dor da morte de minhas irmãs de um antepassado que também era meu e ainda hoje sinto as dores do patriarcado.

Mais tarde, Iansã apareceu para mim e eu entendi o porque dos ventos.

Entendi também que sou liberta demais para caber nas normalidades.

A mulher que sabe que me habita já ventava saberes ancestrais, nunca mais deixei de ser vento.

Ouça “Mulher sábia” na voz da autora

Um comentário em “MULHER SÁBIA

  1. Belo texto de uma caminhada pessoal, de autoconhecimento que se combina com a vida coletiva, com a história, com a vida social.
    Alguns historiadores e autores identificaram a feitiçaria, os saberes sagrados, pagãos, a sabedoria popular, em diferentes contextos, como uma arma de defesa e ataque nas lutas sociais. Carlo Ginzburg, Silvia Federici.

    Há autoconhecimento sem uma inserção profunda na vida coletiva?

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