REENCONTRO

Encuentro, 1959, Remedios Varo

Texto publicado originalmente em 23 de setembro de 2020

Ana Karina Manson

Só por hoje ela queria chorar sem precisar se esconder para que ninguém descobrisse suas fragilidades.

Estava tão cansada desse personagem que criou e vestia há tanto tempo, que em alguns momentos até se confundia entre o que era real e o que inventava.

Aprendera a ser e agir como o personagem. Nem se lembrava de suas verdadeiras ações. O original, a matriz estava perdida em algum lugar.

Talvez numa gaveta junto as fotos antigas em que ainda sorria de verdade, sem medo.

Mas agora tinha medo até de abrir a gaveta; ver nas fotos uma felicidade que pudesse ofuscar seus olhos tão frágeis e sensíveis.

Seus olhos já viram tantas dores e já transbordaram tantas outras que tentava protegê-los, ao menos do passado, que teimava em procurá-la numa roupa antiga, numa música assobiada distraidamente, num cheiro, num sabor.

Fugia do passado para fugir de si mesma, de sua essência.

Tinha medo de reconhecer em algum pôr-do-sol ou céu estrelado a felicidade que já sentira e, caso quisesse experimentá-la novamente, receava nunca mais conseguir.

Era melhor acostumar-se com a alegria momentânea do presente do que viver a angústia de nunca mais ser feliz ou de nunca mais ser amada.

Preferia caminhar sozinha e sorrir fingindo bastar-se a considerar a possibilidade da companhia e não tê-la.

Afinal, se era para ser sozinha, então melhor vestir seu personagem que se satisfazia com sua própria voz, com silêncios, plantas e músicas.

Agora, acostumara-se a observar os pássaros que passeavam pelo seu jardim. Era um jeito de receber uma visita. Sentia-se mais viva, principalmente quando ficavam por alguns segundos circulando uma flor ou mesmo pousavam como se quisessem ouvi-la cantar para eles.

Há dias que não cantava. Quando criança acreditava que seria cantora. Foi esse um dos primeiros sonhos engavetados. Depois um amor, uma viagem…

A vida esperava por ela numa gaveta; esperava o dia em que ousasse encontrar-se de novo. E ela seguia adiando esse reencontro; sabia que seria um caminho sem volta.

Ouça “Reencontro” na voz da autora:

4 comentários em “REENCONTRO

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