VINTE-VINTE.

Ontem vivi um ano de 365 dias. Ainda flutuam na minha cabeça todas as formas e cores que estavam presentes. Estão ainda no meu nariz a falta de amor vivida neles e, nos meus olhos, a falta de tato com a vida a que esse ano sobrevivi.

            Pedacinhos de alegria grudaram os dias uns nos outros. Nos intervalos entre as felicidades e as agonias eu dormi agradecida. Acordava subindo já as escadas de outra manhã. Lá pelo meio dos 170, quando a terra parou de girar, a espiral de escadas rolantes me obrigava à contínua subida… Muitos degraus paralelos onde se não alcançavam mais as pessoas, subindo ninguém sabe para onde, mas até aí tudo igual… Afinal, quem sabe aonde está indo?

            Micro organismos, talvez melhores que nós, ou que as pessoas que colocamos para cuidar do mundo – fomos nós? – brotaram de um universo paralelo… Não eram a enchentes, os assassinos, os carros, os aviões caindo, os ETs chegando, esses já costumeiros egoísmos humanos que naturalizam nossa morte, era sei lá o quê que criamos desta vez. Somos muito criativos!!

            Bem, eles vieram daquela outra forma de morrer, de matarmos uns aos outros, aquela que conhecemos, não as que vêm de fora, não as que criamos em laboratório, são mais de dentro, tão fácil de emanar como gás carbônico, tão fácil de proteger que causa descaso.

            Eu já tinha vivido 35 anos e 280 dias quando percebi que a subida era mais longa que meu preparo físico de merda conseguiria dar conta! Umas amigas me gritaram de longe “Ei, não fica!!! Vem!” Minha mãe me olhou nos olhos e falou “Filha, você não é assim. Você é forte!” Meus irmãos riram, apenas, sabendo que eu sempre fui insistente demais para parar, para parar, para parar, para parar….

             O insucesso dos dias foi ganhando ritmo, e já comecei a dançar naquela lama que ensaboava meus pés, eram 310 dias do segundo tempo. Ufa! Mais alegrias colando os meses nos outros, quase vertigens em frente aos olhos, o espelho d’água ou oásis do fim do ano eram só ilusões virtuais. Telas, uma após a outra, boas notícias. Notícias ruins. De abraços um deserto, de beijos só a seca… Amor ao próximo era alguém que não cuidou da saúde do outro doando alimento aos mais pobres. Porra! Eu não entendo nada mesmo.

            Eu não sei o que fazer, porque escolhi trazer meus filhos aqui, o que estou fazendo? Ninguém me impediu? Ainda bem que os tenho, tenho sim, Ah! Que bom! Seus sorrisos são espelhos d’alma e como beijinho de mãe cura. Ah! Se cura!

            489 dias se passaram e eu a contar no calendário o fim do ano… Meu inconsciente mais louco me avisa… “Amada, isso tudo só acaba quando você desistir de ser gente! Os ciclos são espirais, você não vê? Suba, desça ou pule!” … Mas as amigas gritam, os filhos sorriem, as mães dão beijinho, os irmãos riem pra mim, os amores me preferem por peto, mesmo quando me mandam embora, eu sei… Então…Que importam os anos?

7 comentários em “VINTE-VINTE.

  1. Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro… Curioso que a música quase esquecida do meu conterrâneo virou hit…Todo dia se vive e se morre de alguma maneira, o que nos custa é equilibrar em meio dessa luta entre vida e morte! Feliz 2021.

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  2. É um movimento de morte e renascimento , vezes rápido , vezes lento.
    Viver dói, mas é bom viver.
    Feliz todo dia!
    Gratidão por nos encontrarmos em outros tempos.
    🙏🏿🌱😘

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