Poeticamente selvagem

pintura de nickie zimov

“apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo:
come às vezes na minha mão.”

Clarice Lispector, em Perto do coração selvagem

por Celane Tomaz

tantas tardes deformadas em ventania
e há um cheiro de chuva que se insinua.

nesta terra,
sinto-me muda de planta carnívora
a morrer-nascer entre espinhos.
sinto-me raiz exposta
disposta a devorar o solo
trêmula pra se replantar.

anseio
pelas memórias de um tempo por vir
pela varredura das folhas secas, natureza morta pelo chão
pela entrada de claridades outras pelas frestas das janelas
por expandir-me inteira e completa nos espaços dos vãos.

eu quero
me sentir viva
viva em cada canto de pele
viva em cada poro aberto
numa realidade possível e tolerável
sentindo o ar entrar, absolvido de qualquer condenação.

eu quero.
e quero tudo o que cabe no verbo querer.
quero morar
no passar do tempo
da extensão de alguns sorrisos
dos dedos que se escondem e deslizam em carícias por detrás dos cabelos
da lenta caminhada de incontáveis passos entre calçadas e palavras
dos sorvetes em contraste entre as cores e os sabores
das ações inesperadas
entre cortes e costuras.

eu quero
um copo de leite, de café, de chá
um porre de devaneios, de palavras absurdas
eu quero
deitar sobre a noite
encher o peito de dia
tatear o prazer nos lampejos de vida
caminhar de alma nua
desconhecer o medo
beijar a verdade.

tenho em mim a voraz sede de ser
o sangue num frenético fluxo corrente em latência nas veias
o grito preso na garganta
de algo que se contorce e geme
às vezes pássaro
outras aranha
voa, rasteja

um animal poeticamente selvagem.

contornando a desalmada fome
sentindo o gosto de tanta vida na saliva
descanso-me entre os dentes
e carrego meu corpo
no amanhã.

Ouça “Poeticamente selvagem” na voz da autora

10 comentários em “Poeticamente selvagem

  1. “nesta terra,
    sinto-me muda de planta carnívora
    a morrer-nascer entre espinhos.
    sinto-me raiz exposta
    disposta a devorar o solo”

    Ainda bem que existe a literatura, a poesia e a imagem do que é real para tentarmos descrever como somos e sentimos.

    Curtido por 1 pessoa

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