Então é natal?

O ABRAÇO DE ESPERANÇA - PINTURA DE JOÃO TIMANE - YouTube
João Timane- Um abraço de esperança

Arlete Mendes-

“So this is Chrisman’s and what have you done?” Esta não é a música que mais gosto de John, acho bem ruim a versão em Português. Mas uma canção que se inicia com uma pergunta merece ser ouvida com atenção, propõe uma reflexão, um autoexame de consciência, coisa rara diante do alto grau de automatismo com que fomos treinados a conduzir a vida. O tempo da pergunta nos foi roubado.

Talvez Lennon tenha dado corpo a essa canção para que a pergunta fosse feita, e o que você fez? O contexto é amplamente sabido, evidente quando se ouve o coro de crianças do Harlem: “war is over , if you want it”, aliás, esta é a parte que eu mais gosto da música, é o coro que a embeleza, faz ganhar a força de ressoar décadas e continentes,  marca o engajamento num embate contra uma política genocida. E de política genocida, vamos confessar, entendemos muito bem, temos um currículo invejável, desde 1500 que aqui não se pratica outra coisa.

Quando eu ouço os ufanistas dizerem que Brasil é terra boa, pacífica, não tem guerra, nem furacão, nem terremoto. Algo remexe por dentro, normalmente eu revido com os dados do mapa da violência. A velha violência institucionalizada, que, de tão arraigada, se fantasia numa pose de pretensa paz. É aquela miss posuda e impecável, acenando um adeus forçoso. Adeus que chega implacável às pessoas do meu meio. Estamos em guerra há mais de 500 anos. O sangue gota-gota derramado não é contabilizado como tragédia bélica que é, ao contrário, cada vez mais tem sido banalizado.

Sempre gostei de usar a palavra meio para dizer de onde venho, quando nos mudamos para cá, na década de 70, não havia a popularização do termo periferia, parece que nascemos com o termo, não é? Era vila. ” Aonde você vai passar o Natal? Aqui mesmo na vila”. Na palavra vila morava a ideia de pertencermos a um lugar, porque estávamos a construí-la, era na vila que viviam nossos afetos.

E o natal o que era? Dia em que passávamos de casa em casa para dizer um ao outro a efusiva frase,  tomar um copo de crush laranja, variar um pouco do K-suco, e quem sabe nas casas mais afortunadas ganhar um cacho de uva niágara, que é a que eu mais gosto, não lembro desse negócio de pane de toni, tem coisas que a gente só veio a conhecer muito tardiamente.

O fato era que pouco ligávamos para comida, isto era preocupação dos adultos, uma questão de honra para a nossa comunidade, que migrou por conta da fome. O maior orgulho e sinal de vitória em meio ao desterro era ter o de comer.

Para varrer o fantasma da fome e manter vivo esse orgulho, havia uma movimentação subterrânea, quase misteriosa, que fazia chegar arroz e feijão em embrulhos, noelescamente. Ah, taí outro cara que fomos saber da existência duvidosa também tardiamente, até então, era a história do menino revolucionário, desterrado, de sua mãe lutadora que ouvíamos e fazia muito mais sentido.

“Vá lá levar essas roupas para Dona Cecília costurar”. Eita, roupa que pesava! Só depois a gente descobriu que ali existia uma rede secreta de ajuda. Naquele tempo nenhum nordestinado da vila sofria sem ter o arroz com feijão.

Os mutirões de construção das casinhas, sempre peladas, o auxílio subterrâneo nas horas de dificuldade,  as contribuições voluntárias nas horas de nascer e morrer, e, sobretudo, os momentos de festejos com muito forró e cachaça é o que nos fizeram resistir.

Para a juventude o negócio era esperar dar meia-noite e partir em reisado. Que folia era sair de beijo em beijo, de abraço em abraço, de porta em porta, havia sempre intenções amorosas em jogo, é claro, mas o nosso meio, a vila, era um quintal estendido, todo mundo estava de olho na gente, para o bem e para o mal.

Logo depois da meia-noite, já éramos um bando, porque o visitado recebia os cumprimentos e se ajuntava. Algumas mães não gostavam, a minha era uma delas, mas havia um acordo do grupo de devolver com escolta os anjos e anjas superprotegidos.

Na verdade, só depois de adulta fui compreender o que essas mães sentiam na pele, muito antes das pesquisas e dos estudos chegarem aqui, elas tinham mestrado e doutorado em segurança pública, tendo como base teórica e prática a dor provocada pela guerra oculta em que vivíamos.

Tínhamos medo também, sim, nenhum de nós passou incólume pela morte premeditada da necropolítica, termo também recente, para algo que vivemos desde sempre,  mas a nossa inocência de alguma forma nos protegia, em bando nos sentíamos onipotentes. E assim era o nosso Natal, uma troca comunitária de afeto e presença.

Em minha casa acontecia o forró, e era mesmo “for all”, depois da nossa folia de reis antecipada, caíamos no xaxado, no baião, no xote, dançava com papai, mamãe, minhas irmãs, meus tios e tias, primos e primas, vizinhos e vizinhas. Adultos, velhos e crianças, meninos e meninas, ali, naquele quintal,  todos juntos, nordestinados a uma noite feliz, numa força de alegria inventada, que gerava nossa munição, suprimento para as guerras do ano vindouro, prontos para o novo cangaço continuado em terras do sul.

Assim tento elaborar minha resposta à pergunta de Lenon, a memória, Jonh, é ela, é ela que tem sido minha companheira de guerra e de paz, com ela revisito o passado, ressignifico o presente e construo meu desejo de futuro. A partir dela imagino que o “nós”, em muitos nós, esteja implicado na felicidade coletiva, fazer valer o “living life in peace…”, sabe? Numa paz desenhada por nossas mãos, fincada na possibilidade de bater numa porta e oferecer um abraço e ter a certeza que essa porta se abrirá, assim como os braços de quem nos espera, há tempos. Era também seu sonho imaginado, não era?

Ouça Então é natal? na voz da autora.

Música de fundo: Sertania : sinfonia do sertão com Elomar.

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

14 comentários em “Então é natal?

  1. Chorei…chorei….relembrei e chorei….muitos pontos em comum com minha vida….tirando a festa …vinda de família evangélica e muito pobre pra festejar…comer…cozinhar…conversar era o grande rito desses dias natalinos…Jesus nasceu…só depois…muito depois…descobri que por trás desse nascimento houve guerras, perseguição, fogueiras…e destruição de culturas…da minha própria cultura q era catequizada…convertida….sabe…o Jesus que me ensinaram não tem nada disso…voltamos ao velho e bom poder e dinheiro q comanda a porra toda…
    Desejo dias natalinos para todos…pq pra viver nessa necropolítica é preciso abraço, beijo e dividir a mesa…

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  2. Retornei a minha vila, a periferia que cresci, a vizinhança que se ajudava mutuamente, o ir de casa em casa no natal, o sentimento de coletividade latente entre as pessoas, gratidãoooo ❤️

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  3. Você me fazendo chorar de novo… Eu chorava (às vezes ainda choro quando ouço Lennon, é uma longa história…). E sobre o Natal viajei da infância com restrições e farturas, da adolecencia de casa em casa, dos acessos que só chegaram na vida adulta…
    Amiga, me tocou num tanto seu texto num.misto de saudade e gratidão que nem sei….

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  4. A escrevivência da amada amiga Arlete nos convida a voltar no tempo para responder a pergunta:
    ” Então é Natal, oque você fez?”
    Estou aqui preparando uma salada e farofa p/ almoçar com minha filha do coração , Vitória Lee.
    Ontem o jantar foi com meu filho Vinícius e nora Tamiris.
    Com o passar dos anos a resposta vai ficando mais recheada de afetos de ontem é de hoje.
    Misto de sentimentos.
    Sorri, chorei e agradeci.
    Feliz dia de Natal , amad@s !
    🍷😘💖

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  5. Querida Arlete, minha mente está povoada de lembranças natalinas, dentro de mim ( antes da subversão colocar em xeque todas alegrias cristãs), existe uma mesa farta e comunitária, as paqueras e suas demonstrações, que por ser natal poderiam ganhar tons de felicitações.
    Grata por sua escrita, grata por sua existência.

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  6. Que potência, querida Arlete.
    Também me identifiquei muito com essa trajetória/história que como você mesmo diz é uma memória que deve de munição, para continuar na luta.
    Gratidão por me municiar, pois dessa estratégias de sobrevivência, já não me lembrava mais e saiba que cada vez mais só aumenta, por ti, minha admiração.

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  7. Que potência, querida Arlete.
    Também me identifiquei muito com essa trajetória/história que como você mesmo diz é uma memória que serve de munição, para continuar na luta.
    Gratidão por me municiar, pois dessas estratégias de sobrevivência, já não me lembrava mais e saiba que cada vez mais só aumenta, por ti, minha admiração.

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