Meu corpo!!!!

Amy Judd

por Ana Karina Manson

Ela tinha 9 anos quando um amigo do pai disse:

— Está crescendo, vou te esperar para casar com você.

Era uma brincadeira, que o pai respondeu dizendo que tinha uma espingarda e outras coisas que se acostumou a dizer, ele e os outros tantos homens na sociedade que enxergavam o pai como o símbolo daquele que pode e deve defender suas filhas dos possíveis pretendentes.

Não sabia o pai, não sabem ainda muitos pais, que a pseudo brincadeira do amigo já era uma ofensa à filha. Afinal, quando ele diz: “está crescendo” na verdade está constatando o corpo da menina mudando e esse olhar para ela já era uma invasão, uma agressão.

A menina, ainda criança, nem identificou a brincadeira como violência, apenas se sentiu mal, querendo esconder seu corpo para não ser visto, para não viver novamente esse constrangimento.

Também queria esconder seu corpo quando outras mulheres da família falavam de seus peitos apontando, de seu quadril alargando como se estivesse numa vitrine só esperando um comentário do que o público considerou interessante ou bonito.

Passou a notar que seu corpo era público e quis escondê-lo.

Assim ela cresceu. Era menina estudiosa, dedicada e sempre chamava atenção de todos pela inteligência e boas notas na escola. E quanto mais a adolescência apontava mais ela estudava, tentando levar o foco para suas notas escolares, para sua atenção aos livros e aos cálculos matemáticos.

Ela se iludiu pensando que suas roupas poderiam também ajudá-la se usasse sempre um número maior. Passou a escolhê-las de modo que sua magreza e suas pequenas curvas fossem encobertas, assim como suas angústias em ser mulher.

Um dia descobriu o amor e se despir para ser vista foi um dos seus maiores desafios. Sentia como se estivesse colocando seu corpo numa vitrine, como se ao invés de ser amada, seria na verdade analisada como uma obra de arte num leilão.

Com o tempo aprendeu a se despir, descobriu que não poderia mesmo se tratar de um leilão, pois nenhum dos amores que encontrara no caminho seria mesmo capaz de oferecer uma lance que valesse o que tinha a oferecer. Aprendeu a amar, simplesmente amar.

E desses amores surgiu uma filha. Era agora mãe e seu corpo tinha um significado divino, mágico. Sentia-se porta-joias.

A filha foi crescendo e ela preocupava-se com o que esperava a menina, que carregava em si a semente do que seria um corpo público, ao qual um ousa fazer pseudo-brincadeiras, outros apontam nas ruas, outros comentam suas mudanças, outros fingem que abraçam para tocá-lo…

A mãe não esperou o mundo mudar e as mulheres serem respeitadas desde a infância, talvez fosse esse um sonho que nem ela, nem sua filha veriam realizar. Decidiu então matar a semente de um corpo público e plantar a semente de um corpo livre.

Agora sabia que sua filha vestiria as roupas que quisesse sem querer se esconder quando ouviu a menina responder a quem falou de suas primeiras transformações:

— Eu não quero que fale do meu corpo!

Ouça nossa voz.

11 comentários em “Meu corpo!!!!

  1. Me vi representada em cada cena, eu que já sofri vários assédios e abusos ao longo da minha vida, também fazia o mesmo, eu e minha irmã usávamos as roupas de meu pai, eu os camisões, minha irmã até as bermudas de cordão. Depois que sofri uma tentativa de estupro caminhando na rua, vestida com as roupas de meu pai, vi que não era nada disto. Por sorte aquele dia escapei, e percebi que nada que eu fizesse para me proteger me manteria a salvo.
    Que nossas pequenas possam ousar a liberdade de seus corpos é o que também espero.

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  2. Querida agradeço cada palavra.por aqui essas reflexões tem grande peso, assim também tenho conversado com minha filha, que ela é livre e seu corpo também.
    Um texto presente.

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  3. Amada amiga, gratidão por suas palavras que nos fazem refletir sobre o nosso papel a todo tempo. Infelizmente meninos e meninas sofrem assédio, mas, é infinitamente maior o número de meninas. Que sejamos vozes que ecoam . “Meu corpo, minhas regras”!

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  4. Maravilhoso texto. É muito triste, desde o início e sempre sofremos assédios. Acham que nosso corpo é público a ponto de, sem darmos nenhuma liberdade, fazerem julgamentos sobre ele. Já passei pela situação de comentarem sobre o meu no meio de uma reunião e me senti muito constrangida e invadida. De fato, sem pedirmos, parece que nosso corpo está numa vitrine à mostra pra ser vendido. Mas, só queremos existir e ser livres.

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