Estrela de Belém

Pin da arte

Raíssa Padial Corso

“Os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do entendimento.”

– O Caibalion.

Através da profunda observação da natureza, através do inenarrável inseto que nasce, através da estrela polar, no mistério na luz de Gabriel, com a percepção aguçada assim como no chá, no recôndito mais escondido da alma, no frio do bafo da visita da morte e suas lâminas, como disse a xamã. Lá no pontinho pineal. Na ervilha cerebral. Onde mora fohat, o fogo celeste em nós. Mora lá o cadin de gente, semente aquariana, o grupo, a grupa, a corpa no mundo, a teia luminosa, a que liga nervos, a que liga pólvoras, estopins de ideais.

Num recôndito povoado, ao lado direito do meu lóbulo frontal, ficava aquela vilazinha, e foi lá que uma velhinha bem parideira, bem rezadeira me contou “O todo é mental, tudo é mente”, entre as unhas dos seus pés, havia muita terra, pé de pachamama como diz a minha filha. Tava lá a véia acocorada aos pés do borralho. Entre lenhas gasosas me contou o seu caminho com a cristandade, quando ela mesma havia se benzido e batizado na clareira mais lamacenta da floresta. Confirmou-me que após aquele dia seus pés sempre eram cor de terra. Sentiamos, sim, a presença dos animais, mas como em toda roda, mas como em toda história com faíscas iluminadas de um fogo para o norte, era roda que se fazia, círculo, partilhas em verbos que a brasa acende a memória, acende a ervilha central. No fogo a véia Cora via a história de todo ser vivente, entendia as conjunções, os reflexos, as projeções e repetia a cada dedo de prosa: “O que tá lá em cima tá aquim’baixotamémzinfiá”. apontava para o alto, nos seus dedos muitas rugas, apontava para baixo ao mesmo tempo, com uma mão de donzela, uma mão de porcelana.

-Lá em cima minha fía, vive um gigante veloz, ligeiro que só, ele brilha tanto…é o que faz a esperança existir, bondade nas coisas simples mijadas de orvalho, como disse o véi criança, se iluminam nos nossos zóio por causa dele, ele te arrasta e faz tu acreditar em si. Em noites como essa, onde brilha Belém à luz do gigante se redobra e debulha nosso interno, isso sabe por causo de que? Sua luz se junta com a do aneludo, aquele que a tudo corta, ceifa, amarra, bota freio, ensina as limitâncias, um mestrão que rege agora um ciclo maior, lá pruns 35 anos, de freio, de corte…imagina só zínfía, o cavalinho de pau que esse planeta d´ôceis tá dando com esse ciclo maior, vixe fía, cêis tão rodando tanto que nem imagina. O mestrão saturno é classudo, usa smoking, com uma foice de prata na mão.

A véia nesse momento me olhou com uns zóio de bomba de dá medo, me deu água morna da fogueira pra beber, ajeitou meus pés numa cabaça, com água quente, colocou suas ervas, bastante artemísia, soprou minha cabeça com a fumaça de seu tabaco e deu procedimento a concluir seu raciocínio.

-É preciso assumir o compromisso com a sua pineal zínfía…. cêis tão tudo envenenado….e tão gostando, e tão se lambuzando com ketchup….idolatrando toxinas.”Tudo possui um ritmo, seus influxos e seus refluxos”, a onda que sobe é a mesma que vorta, a vida é uma linha com uma pedra amarrada, é como um rélo… pendular.É Shiva destruindo, Brahma construindo e Vishnu mantendo, se eu sou véia imagina esses cabra…hahahaha.

“Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!Disse e ajoelhou-se numa rogativa.”

Cora soprava a fumaça espantando os véus de Maia. Matracamente fazia-me perguntas que eu não poderia aquela altura responder

.-Óia que dia lindo, solstício de verão, e ôceis aí sendo obrigado a despertar pelo pulmão, pelo ar, pensaram tanta besteira, criaram tanta inutilidade, mas também criaram o mini ralador de alho, sou fã, macera muito bem para os unguentos… em tudo existe um polo negativo e outro positivo, até no raladorzinho de alho.

-A maré d´ôceis tá subindo, vocês não tomaram para si a responsa com as marés. Tem hora que eu penso que o mar morto está certo, mas só em tempos de inverno que essas idéias me provocam, também estou evoluindo, penso nessas coisas…mas me sinto confortável nessa vila do lóbulo frontal. Vocês dão murro em ponta de faca, desistindo de se integrar, a natureza possui muitas engrenagens, vocês não vão entender assim, o fogo tem seus segredos, já limpou ozovido direitin?

Tá tudo vibrando, eu sinto sua respiração…..Vejo até faíscas de cores que saem de ti.

O sorriso da velha era podre de muito tempo e ainda assim conseguia ser o sorriso mais terno, brilhava assim como a estrela de Belém.

Se para você a velha é efeito eclipsado, ou muito reflexo da bancada evangélica inaugurando insanos messias; se pra você a velha é navalha cortante de pressa, angústias de garganta, sem ter para onde ir; se pra você a velha pulsa nos seus membros, te atrofia e sussura; se pra você a velha, vai ao parque da aclimação e dança de vestido florido; se pra você a velha é a benção de um chuveiro queimado; se pra você a velha é cristo renascido em ti numa era fractal; se pra ti a velha é um bate cabeça na roda de punk, suor, jaqueta, num bar subversivo de Taboão; se pra você a velha pulsa na sua pineal.

Ou nenhuma das opções acima.

Saiba que a velha Cora ou Ruth te conduzirá, despertando chacra por chacra, glândula por glândula, nadi por nadi, ensinará você a respirar e será para ti um ronronar carinhoso de gato, chuva na terra ou laços reais ancestrais, primitivos reestabelecidos.

Nessa noite que você também encontrará a sua velha, balançando na rede neural do seu lóbulo frontal, será solstício de verão e o brilho renascerá. Hórus descansará no colo de Ísis.

Ouça “Estrela de Belém” na voz da autora:

música de fundo “Sumer” – Vivaldi.

Um comentário em “Estrela de Belém

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