Garoa

Nascer do sol (1972), Claude Monet

“Aos olhos nus, não passava de uma chuva repentina, mas aqui dentro…” 

Clarice Lispector

por Celane Tomaz

olhe pela tua janela.
chove sobre a madrugada calada. a chuva molha o início da manhã.
repare nas gotas que se mantêm e as que escorrem pela vidraça, resistindo à vida breve, mantendo-se firmes em água frágil.

goteja como se o tempo demorasse e resistisse ao próprio tempo.
enquanto a chuva precipita, tímida e abundante, sempre nos molha uma certa mudez e nos inunda o silêncio.

nos inebria o cheiro de chuva e nos embriaga a brisa que dança com os cabelos.

o som sussurrado e quase inaudível da constância que inunda embala as vozes do pensamento e submerge as poças que habitam o peito.

acordar com a chuva lava.

observá-la despencar é permitir-se ir junto ao chão e encontrar um inexplicável prazer e contentamento em chocar-se com matéria palpável, escorrer lavando beiradas e caminhos, levando coisas soltas, sem peso ou raíz no chão.

desaguar em algum lugar, encharcar alguma terra, romper o concreto.
há certo hibridismo na atmosfera nublada e na claridade que antecede os trovões, na água que tempesta e que purifica e percorre as superfícies, se fundindo com a opacidade do ar que se respira.

há dias está cinza.
sinto a umidade fria e a ausência do sol ardendo em pele, a falta do azul – nítido e tocável – cobrindo e ornando um estado de espírito anuviado.
mas ainda há o cheiro de terra molhada e o lampejo de sol entre as frestas das nuvens.

olhe por estas janelas que se abrem em cortina de palavras, relampejo em pensamento, claridade de um céu aberto.

beba da pausa que sacia a sede de vida. contemple o vapor que muito (e)leva. carregue esta chuva na concha das mãos. se afogue na garoa que te beija.
enquanto teus olhos escorrem numa espécie de vidraça ainda embaçada, do outro lado chove
só até amanhã
de manhã.

ouça “Garoa” na voz da autora

11 comentários em “Garoa

  1. “nos inebria o cheiro de chuva e nos embriaga a brisa que dança com os cabelos.”

    Quanto encantamento vivido desde o céu se preparando para chover até a descrição das gotas na vidraça quando amanhece.

    Curtido por 1 pessoa

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