A hora e as estrelas

A Hora da Estrela
Pintura de Henri Matisse
Henri Matisse

Arlete Mendes

Compadre meu, químico, disse-me certo dia que os seres humanos, assim como as estrelas, emitiam luz. O olho tem o defeito de não ver essa preciosidade. Ainda que não soubesse direito como encaixar essa minúscula verdade em minha rotina ilógica e desconexa, sabê-la me trouxe uma alegria quente. Como o sol no quintal do Belchior.

Não me lembro muito bem dos detalhes da explicação para esse fato físico-químico, mas isto é o que ficou. Por mais que a vida seja negada. Haverá uma réstia penumbrosa, filete fino que atravessa as frestas. Essa pontinha de saber teve o poder de iluminar as sombras, deu-me força para admirá-las com coragem.  

Sombrio é o tempo em que vivemos. Sombria é a noite que nos cobre.

Quando há céu de estrelas penso em Macabéa. É meu ponto cego e vidente. Representa aquilo que sei, e o que sou incapaz de saber por minha inerente ignorância. Ignorância humana. Representa também a possibilidade de ver. Ver o mundo de uma maneira mais lírica, ver que o que é vivo pulsa e brilha.

Aquilo que liberta, por vezes, é intocável, invisível.

Macabea condensa a poesia escrita na palma de minha mão, nos dedos magros que digitam como se catasse milho, escrevendo torto e borrado os pensamentos difusos.

Nordestina. Também sou. Pouco sabe de si. Também pouco sei. Tem uma inocência pisada. Sou massacrada ao final de cada dia. Nenhuma personagem da literatura me representa tanto quanto Macabéa. Um enigma de mim mesma, é a esfinge que me devora, me regurgita e me faz continuar querendo saber.

Macabéa espera o amor de Olímpico, eu espero o amor do mundo. O mundo é Olímpico eu sou Macabea, por isto continuo esperando, mesmo que ele seja incapaz de amar, incapaz de compreender, porque o mundo não sabe de si, é implacável e urgente.

A urgência dos dias, voraz e incisiva, que pouco a pouco, entre milhos e migalhas catados, nos rouba a vida. Ah, imediatez! Priva-nos do tempo de viver, do tempo de amadurecer. Sete pragas do Egito. Consome ad aeternum a suntuosa cidade feita de ouro e pedra, matando lentamente seus primogênitos per omnia saecula saeculorum.

Vivemos o desencanto da superfície novidadeira e a busca sem fôlego pelos destroços há muito submersos, e, às vezes, por sorte, um único gesto de amor, uma verdade miúda, traz à tona o respiro.

“Paciência, não podemos ser tão imediatistas, já foi plantado, espera!”.  Se acompanhado de um abraço longo, um olhar terno, uma voz acolhedora, tem o dom de eternizar, tornando-se muito mais do que empatia. A frase, o gesto, o olhar ficam ecoando no tempo, dando alento para todo “não” recebido. Feito as estrelas, piscam no céu noturno da memória, iluminando o breu da existência.

A noite continua opaca. São os céus de SP. A cidade precisa brilhar mais que as estrelas. No escuro deito-me, fecho os olhos, sinto leve a cabeça, os braços e as pernas. Respiro fundo e deixo pousar um único pensamento: luz.

Ouça A hora e as estrelas” na voz da autora:

Publicado por arlete mendes

escrevinhadeira, educadora, mãe de meninos e meninas, amante da música, da literatura, da vida!

3 comentários em “A hora e as estrelas

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