Eclipse

Ana Karina Manson

O amor se apresentava a eles de forma distinta do que um dia ambos conheceram.

Cada um com sua história já construída, já vivida fora surpreendido com o amor que surgiu sem que dessem por ele.

Quando perceberam já se olhavam com entrega e cumplicidade; já se tocavam por qualquer motivo: um balanço proposital do corpo, um cuidado. Por tudo que já os dominava.

Assim foram seus longos dias por longo tempo: trocaram olhares, toques sutis, poesias. Tantos almoços em que ficavam como ímã se atraindo com toda força e, ao mesmo tempo, controlando a atração proibida aos olhos alheios.

Como pode um simples ser humano compreender as armações do destino?

Foi esse o questionamento de Loreley no final daquele dia, pois como planejado encontraria Ulysses. Atravessariam a cidade juntos, respirando por horas o mesmo ar, esbarrando todo momento um no outro.

E como planejado “no vão das coisas”, naquele dia, ainda que proibido, indevido, escondido, entregariam um ao outro seus corpos. Suas almas, já há tempos não podiam dominá-las. Não

mais lhes pertenciam, ao contrário, a alma de um pertencia ao outro como se fosse uma jóia que lhe cabia nas mãos. Como se fosse uma flor plantada no vaso do outro e que, sem dúvida, cuidavam desta alma-planta que tanta paixão lhes trouxera.

O fato foi que na hora possível, no dia possível – depois de tantos outros impossíveis, proibidos pelas regras, pelas doutrinas que de alguma forma ainda seguiam – ela, ainda que insegura, deixara para ele a responsabilidade de guiá-los para o lugar possível.

Porém, ele com todo seu mistério negou o dia possível, a hora possível e recusou-se a amá-la como se a união de seus corpos fosse desatar a união das almas, como se só pudessem fazer amor como já faziam: entregando e entrelaçando suas vidas.

Mas sabia ele que ao negar o sexo, fizera aumentar a admiração de ambos. Fizera com que entregassem mais ainda suas almas ao declararem amor um ao outro para que se perdoassem pelo que não fizeram, para que perdoassem a si mesmos e no outro o amor incontrolável que, na verdade, não queriam controlar.

Não há dúvidas que explicitamente Loreley e Ulysses fizeram amor no bar, tomando café com palavras que “amargo-doce” diziam e ouviam. Ingênuos não sabiam que faziam amor e entregaram-se sem prevenção ou preocupação e engravidaram suas almas de um amor que – drão – inevitavelmente iria nascer.

Ele disse amá-la e por isso não poder amá-la; ela disse não esperá-lo e, por isso, ficava a sua espera. Como alguém os entenderia se nem eles próprios eram capazes de desvendar seus mistérios? Como poderiam viver sem tais mistérios? Ele mago, ela bruxa.

Não foi em vão que no caminho daquele dia passaram por uma escola de magia como se a mágica de seus sentimentos, de suas sensações fora um dia elaborada à luz de uma lua cheia e desconheciam a forma de quebrar o feitiço.

Enfeitiçados estavam e assim foram para suas casas, pensando que distantes estariam protegidos desta lua, desta luz, desta magia.

E mais uma vez ingênuos, como dois adolescentes descobrindo o amor, foram vivendo os dias seguintes como se fossem capazes de controlar os caminhos que seus corpos queriam, ansiavam por seguir, pois é preciso dizer: o corpo busca a alma já emaranhada em outro corpo.

E como a lua que surge e se esconde, assim foram os dois que se aproximavam e se distanciavam e, como a lua, mesmo distante sabemos sua existência; em algum lugar ela ilumina.

Talvez por isso, por buscar a luz que não é vista, ele a procurou num impulso inacreditável a princípio, pois no dia e na hora possíveis, ele lhe negara.

E agora em hora, dias, lugares proibidos ele lhe oferecera seu colo, seus beijos, seus lábios, seus braços, seu corpo.

E ela, sem pensar, questionar e, quiçá, até sem respirar, retribuiu, entregando-lhe seus seios, seus lábios, seus abraços, suas coxas, seu corpo. Sem que dessem por conta entregaram-se um ao outro com a euforia de dois adolescentes descobrindo o amor e, ao mesmo tempo, com a intimidade de quem há muito já conhecesse aquele outro corpo. Como se em alguma vida já se pertenceram e juraram nunca se esquecerem do calor, do sabor, do cheiro, do toque, do prazer, do amor que explodiu em ambos, simultaneamente, como se suas almas e seus corpos se entrelaçassem num eclipse inexplicável, talvez mágico.

Ouça na voz da escritora

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